Questão FC559045
TEXTO 1 Ponciá Vicêncio deitou-se na cama imunda ao lado do homem e de barriga para cima ficou com o olhar encontrando o nada. Veio-lhe a imagem de porcos no chiqueiro que comem e
Linguagem
CEV UECE · 2025
TEXTO 1
Ponciá Vicêncio deitou-se na cama imunda ao lado do homem e de barriga para cima ficou com o olhar encontrando o nada. Veio-lhe a imagem de porcos no chiqueiro que comem e dormem para serem sacrificados um dia. Seria isto vida, meu Deus? Os dias passavam, estava cansada, fraca para viver, mas coragem para morrer, também não tinha ainda. O homem gostava de dizer que ela era pancada da ideia. Seria? Seria! Às vezes, se sentia, mesmo, como se a sua cabeça fosse um grande vazio, repleto de nada e de nada.
Quando Ponciá Vicêncio resolveu sair do povoado onde nascera, a decisão chegou forte e repentina. Estava cansada de tudo ali. De trabalhar o barro com a mãe, de ir e vir às terras dos brancos e voltar de mãos vazias. De ver a terra dos negros coberta de plantações, cuidadas pelas mulheres e crianças, pois os homens gastavam a vida trabalhando nas terras dos senhores, e depois a maior parte das colheitas ser entregue aos coronéis. Cansada da luta insana, sem glória, a que todos se entregavam para amanhecer cada dia mais pobres, enquanto alguns conseguiam enriquecer-se a todo o dia. Ela acreditava que poderia traçar outros caminhos, inventar uma vida nova. E avançando sobre o futuro, Ponciá partiu no trem do outro dia, pois tão cedo a máquina não voltaria ao povoado.
Nem tempo de se despedir do irmão teve. E agora, ali deitada de olhos arregalados, penetrados no nada, perguntava-se se valera a pena ter deixado a sua terra. O que acontecera com os sonhos tão certos de uma vida melhor? Não eram somente sonhos, eram certezas! Certezas que haviam sido esvaziadas no momento em que perdera o contato com os seus. E agora feito morta-viva, vivia.
EVARISTO, Conceição. Ponciá Vicêncio, 2003. p. 32-33.
No trecho: “Ponciá partiu no trem do outro dia, pois tão cedo a máquina não voltaria ao povoado”, os termos destacados denotam a figura de linguagem denominada
- catacrese, porque não tem um significado específico entre os termos, e o segundo elemento foi usado de forma aleatória.
- ironia, porque há a necessidade de mostrar termos com sentido contrário ao habitual para ilustrar a situação.
- paradoxo, porque não há lógica entre os termos e, na expressão, causam estranhamento.
- metonímia, porque houve a substituição para evitar repetição, marcando entre eles uma relação de proximidade.
Mostrar resposta e comentário
Gabarito
D
Comentário do professor
Metonímia é uma figura de linguagem em que um termo substitui outro por relação de proximidade ou contiguidade, como causa/efeito, instrumento/conjunto, ou parte/todo.
No trecho, trem e máquina referem‑se ao mesmo referente: a locomotiva ou o comboio. O autor usa máquina em lugar de trem para evitar repetição e manter o texto coeso, estabelecendo uma troca por proximidade entre os elementos.
Trata‑se de uma troca do tipo parte pelo todo ou instrumento pelo conjunto, um caso particular de metonímia que mantém a referência clara e econômica.
Portanto, a alternativa correta é metonímia.
Conteúdo do catálogo FC Concursos · Atualizado em