Questão FC559069
Foram 13 anos de chamego e encanto. Dormimos muitas noites juntos, a patinha dela em cima do meu ombro. Tinha medo de vento. O que fazer contra o vento?
Interpretação de Textos (Compreensão)
CEV UECE · 2025
Mila
Era pouco maior do que minha mão: por isso eu precisei das duas para segurá-la, 13 anos atrás. E, como eu não tinha muito jeito, encostei-a ao peito para que ela não caísse, simples apoio nessa primeira vez. Gostei desse calor e acredito que ela também. Dias depois, quando abriu os olhinhos, olhou-me fundamente: escolheu-me para dono. Pior: me aceitou.
Foram 13 anos de chamego e encanto. Dormimos muitas noites juntos, a patinha dela em cima do meu ombro. Tinha medo de vento. O que fazer contra o vento?
Amá-la , foi a resposta e também acredito que ela entendeu isso. Formamos, ela e eu, uma dupla dinâmica contra as ciladas que se armam. E também contra aqueles que não aceitam os que se amam. Quando meu pai morreu, ela se chegou, solidária, encostou sua cabeça em meus joelhos, não exigiu a minha festa, não queria disputar espaço, ser maior do que a minha tristeza.
Tendo-a ao meu lado, eu perdi o medo do mundo e do vento. E ela teve uma ninhada de nove filhotes, escolhi uma de suas filhinhas e nossa dupla ficou mais dupla porque passamos a ser três. E passeávamos pela Lagoa, com a idade ela adquiriu “fumos fidalgos”, como o Dom Casmurro, de Machado de Assis. Era uma lady, uma rainha de Sabá numa liteira inundada de sol e transportada por súditos imaginários.
No sábado, olhando-me nos olhos, com seus olhinhos cor de mel, bonita como nunca, mais que amada de todas, deixou que eu a beijasse chorando. Talvez ela tenha compreendido. Bem maior do que minha mão, bem maior do que o meu peito, levei-a até o fim.
Eu me considerava um profissional decente. Até semana passada, houvesse o que houvesse, procurava cumprir o dever dentro de minhas limitações. Não foi possível chegar ao gabinete onde, quietinha, deitada a meus pés, esperava que eu acabasse a crônica para ficar com ela.
Até o último momento, olhou para mim, me escolhendo e me aceitando. Levei-a, em meus braços, apoiada em meu peito. Apertei-a com força, sabendo que ela seria maior do que a saudade.
CONY, Carlos Heitor. Mila. In: SANTOS, Joaquim Ferreira dos (org.). As Cem Melhores Crônicas Brasileiras. Rio de Janeiro: Objetiva, 2007. p. 271–272.
O tema central em torno do qual se organiza o texto é
- o abandono animal, representado pela atitude do narrador em manter apenas um filhote da ninhada.
- o tratamento humanizado do animal de estimação como causa de incômodo para o narrador.
- a solidão do narrador e a descrição de sua profissão, diretamente relacionada ao animal.
- a relação afetiva entre um animal de estimação e seu tutor, que marca a vida de ambos.
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Gabarito
D
Comentário do professor
Relação afetiva é o eixo do texto: toda a narrativa gira em torno do vínculo entre o narrador e Mila, o animal de estimação que o escolhe e o acompanha por 13 anos.
Os episódios apresentados , o gesto de segurá‑la no peito, o olhar de escolha, a patinha no ombro, a solidariedade no luto, a ninhada, os passeios e o adeus final , organizam a cronologia e o tom emocional do texto.
Esse vínculo transforma atitudes e sentimentos: Mila reduz o medo do narrador, oferece consolo e dá sentido ao cotidiano. A convivência molda ambos, deixando marcas afetivas duradouras.
Portanto, o tema central é a relação entre animal de estimação e tutor e como ela marca a vida de quem ama e é amado.
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