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Questão FC559072

TEXTO 1 Ponciá Vicêncio deitou-se na cama imunda ao lado do homem e de barriga para cima ficou com o olhar encontrando o nada. Veio-lhe a imagem de porcos no chiqueiro que comem e

Interpretação de Textos (Compreensão)

CEV UECE · 2025

TEXTO 1

Ponciá Vicêncio deitou-se na cama imunda ao lado do homem e de barriga para cima ficou com o olhar encontrando o nada. Veio-lhe a imagem de porcos no chiqueiro que comem e dormem para serem sacrificados um dia. Seria isto vida, meu Deus? Os dias passavam, estava cansada, fraca para viver, mas coragem para morrer, também não tinha ainda. O homem gostava de dizer que ela era pancada da ideia. Seria? Seria! Às vezes, se sentia, mesmo, como se a sua cabeça fosse um grande vazio, repleto de nada e de nada.

 

Quando Ponciá Vicêncio resolveu sair do povoado onde nascera, a decisão chegou forte e repentina. Estava cansada de tudo ali. De trabalhar o barro com a mãe, de ir e vir às terras dos brancos e voltar de mãos vazias. De ver a terra dos negros coberta de plantações, cuidadas pelas mulheres e crianças, pois os homens gastavam a vida trabalhando nas terras dos senhores, e depois a maior parte das colheitas ser entregue aos coronéis. Cansada da luta insana, sem glória, a que todos se entregavam para amanhecer cada dia mais pobres, enquanto alguns conseguiam enriquecer-se a todo o dia. Ela acreditava que poderia traçar outros caminhos, inventar uma vida nova. E avançando sobre o futuro, Ponciá partiu no trem do outro dia, pois tão cedo a máquina não voltaria ao povoado.

 

Nem tempo de se despedir do irmão teve. E agora, ali deitada de olhos arregalados, penetrados no nada, perguntava-se se valera a pena ter deixado a sua terra. O que acontecera com os sonhos tão certos de uma vida melhor? Não eram somente sonhos, eram certezas! Certezas que haviam sido esvaziadas no momento em que perdera o contato com os seus. E agora feito morta-viva, vivia.

EVARISTO, Conceição. Ponciá Vicêncio, 2003. p. 32-33.

 

Os personagens apresentados pelo texto são predominantemente masculinos e não recebem nomes próprios. Isso ocorre porque

  1. são muitos homens e há dificuldade de nomeá-los, neutralizando-os para facilitar a compreensão do enredo.
  2. há o interesse de destacar a força de uma mulher negra e as ações de mudanças em sua vida.
  3. é uma história marcada pela subserviência dos personagens, servis à força de uma mulher determinada.
  4. é a representação universal de brancos e negros que não se relacionam com a história da personagem.
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Gabarito

B

Comentário do professor

Porque o texto focaliza a protagonista e sua trajetória de ruptura. Ponciá Vicêncio é nomeada e ganha acesso direto a pensamentos, imagens e decisões; isso coloca em primeiro plano sua força e sua capacidade de romper com a situação de exploração.

Os personagens masculinos aparecem de forma genérica ou sem nome para funcionar como pano de fundo social: representam relações de trabalho e dominação que Ponciá enfrenta. A falta de nomes próprios nesses personagens desloca o centro narrativo para a mulher que decide partir.

Assim, a escolha estilística do autor valoriza a experiência individual e coletiva de uma mulher negra que busca transformação. O destaque não é apenas seu sofrimento, mas sobretudo sua ação e a busca por uma vida nova, reforçando o sentido de mudança e resistência presente no texto.

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