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Questão FC559076

A quem a maternidade atrapalha?

Interpretação de Textos (Compreensão)

CEV UECE · 2024

Texto

 

A quem a maternidade atrapalha?

 

Ações afirmativas, inclusive na ciência, são fundamentais para corrigir desigualdades

 

Leticia de Oliveira - Professora da Universidade Federal Fluminense; Parent in Science

Fernanda Stanisçuaski - Professora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul; Parent in Science

Patrícia Valim - Professora do Departamento de História da Universidade Federal da Bahia (UFBA);

Rede Brasileira de Mulheres Cientistas

 

Nesta semana, o presidente do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), Ricardo Galvão, afirmou em um evento que o movimento Parent In Science "atrapalha muito". O professor declarou que o movimento atrapalha porque, supostamente, teria sugerido que as bolsas de produtividade em pesquisa do CNPq sejam avaliadas de maneira separada para homens e mulheres. Em nota divulgada nas nossas redes sociais, esclarecemos que nunca fizemos tal sugestão ao CNPq.

 

O Parent in Science, uma organização internacionalmente reconhecida e premiada, tem como objetivo principal destacar e abordar os desafios enfrentados por mães na comunidade acadêmica.

 

Relembrando a polêmica recente envolvendo o CNPq, é curioso e emblemático que Galvão tenha usado a mesma palavra que o parecerista do conselho usou para responder ao pedido da bolsa de produtividade da pesquisadora Maria Carlotto, da Universidade Federal do ABC, dizendo que suas gestações "atrapalharam" sua carreira científica.

 

Mas a quem a maternidade atrapalha, de fato? O movimento Parent in Science tem mostrado com dados que a parentalidade impacta a carreira especialmente de mulheres. Entretanto, o que de fato atrapalha é a falta de políticas públicas que apoiem as mães na academia e fora dela. Precisamos de creches, salas de acolhimento e amamentação, divisão igualitária nos cuidados com crianças e idosos e tarefas domésticas. E, não menos importante, urge diminuir a discriminação e o preconceito contra mães nos ambientes acadêmicos.

 

O professor fala ainda que as mulheres não precisam de ações "paternalistas", uma vez que estas impediriam o reconhecimento de seus méritos como cientistas. As ações paternalistas as quais o professor se refere são ações afirmativas, importantíssimas para corrigir desigualdades históricas e sociais. Às mulheres são atribuídas as principais funções do cuidado com crianças e idosos. Esta é uma questão central que gera a necessidade de políticas de compensação, tais como editais específicos para cientistas mulheres. Portanto, embora não tenhamos sugerido formalmente ao CNPq, entendemos que linhas específicas de financiamento para mulheres e grupos sub-representados são essenciais.

 

O próprio CNPq tem editais importantes para mulheres negras, por exemplo. Esse edital seria paternalista? As mulheres negras teriam menos mérito? Sabemos que não, muito pelo contrário. É uma reparação mínima referente a uma injustiça histórica. No caso das bolsas de produtividade em pesquisa do CNPq, é preciso que um grupo dedicado de pessoas avalie as desigualdades de gênero, raça, áreas do conhecimento e distribuição geográfica para propor soluções. Não há solução fácil. Mas há a necessidade inquestionável de mudança.

 

Reiteramos nosso desejo de contribuir para a construção de um ambiente acadêmico mais inclusivo, justo e diverso. Um ambiente que não atrapalhe mais a maternidade de ninguém.

 

Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/opiniao/2024/02/

 

O texto é um artigo de opinião porque

  1. tem como tema a declaração do professor Ricardo Galvão de que o movimento Parent in Science atrapalha a ciência.
  2. discute a relevância do movimento Parent in Science para inserir as mulheres na ciência.
  3. a centralidade temática é marcada pela apresentação de fatos genéricos e frases de efeitos, buscando adesão da audiência.
  4. nele há a predominância de dados relevantes sobre a participação das mulheres na ciência, tanto pelo movimento quanto pelo presidente do CNPq.
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Comentário do professor

Centralidade temática: o texto organiza-se em torno de uma posição valorizada pelos autores, não em pura exposição neutra de dados. A pergunta retórica "Mas a quem a maternidade atrapalha, de fato?" e afirmações como "atrapalha muito" mostram que há um ponto de vista sustentando o texto.

O autor recorre a generalizações e frases de efeito para convencer o leitor, como ao indicar que a parentalidade "impacta a carreira especialmente de mulheres" e ao clamar por políticas públicas. Esses trechos priorizam adesão emocional e aceitabilidade social.

Assim, pela presença de juízos de valor, linguagem persuasiva e apelo à audiência, o texto caracteriza-se claramente como um artigo de opinião.

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