Questão FC559143
TEXTO 3 O Açúcar Ferreira Gullar O branco açúcar que adoçará meu café nesta manhã de Ipanema não foi produzido por mim nem surgiu dentro do açucareiro por milagre. Vejo-o puro e af
Interpretação de Textos (Compreensão)
CEV UECE · 2019
TEXTO 3
O Açúcar
Ferreira Gullar
O branco açúcar que adoçará meu café nesta manhã de Ipanema não foi produzido por mim nem surgiu dentro do açucareiro por milagre.
Vejo-o puro e afável ao paladar como beijo de moça, água na pele, flor que se dissolve na boca. Mas este açúcar não foi feito por mim.
Este açúcar veio da mercearia da esquina e tampouco o fez o Oliveira, dono da mercearia.
Este açúcar veio de uma usina de açúcar em Pernambuco ou no Estado do Rio e tampouco o fez o dono da usina.
Este açúcar era cana e veio dos canaviais extensos que não nascem por acaso no regaço do vale.
Em lugares distantes, onde não há hospital nem escola, homens que não sabem ler e morrem de fome aos 27 anos plantaram e colheram a cana que viraria açúcar. Em usinas escuras, homens de vida amarga e dura produziram este açúcar branco e puro com que adoço meu café esta manhã em Ipanema.
GULLAR, Ferreira. Toda Poesia. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1980. p.277-278.
A divisão social do trabalho, expressa no texto 3, é destacada acentuadamente nos versos
- “Vejo-o puro / e afável ao paladar / como beijo de moça, água / na pele, flor que se dissolve na boca” .
- “Este açúcar veio / da mercearia da esquina e tampouco o fez o Oliveira, / dono da mercearia” ).
- “Em usinas escuras, / homens de vida amarga / e dura / produziram este açúcar / branco e puro / com que adoço meu café esta manhã em Ipanema” .
- “Este açúcar era cana / e veio dos canaviais extensos / que não nascem por acaso / no regaço do vale”).
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Gabarito
Certo
Comentário do professor
Os versos selecionados evidenciam a divisão social do trabalho ao apontarem quem produz e quem usufrui do produto. O eu lírico, em Ipanema, desfruta do açúcar “branco e puro”, enquanto a ação produtiva é atribuída a “homens de vida amarga e dura” nas “usinas escuras”.
O verbo produziram explicita a relação direta de trabalho, e os adjetivos qualificam condições adversas. Há um contraste entre a aparência limpa do açúcar e a origem sofrida, o que torna visível a desigualdade entre consumo e produção.
A estrofe resume a cadeia produtiva e denuncia a invisibilidade e a exploração do trabalhador rural, deslocando a responsabilidade do prazer do consumo para a dureza do labor alheio.
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