Questão FC559172
Às vezes, chego a pensar que este país pode até dar uma reviravolta na teoria de Murphy, segundo a qual “se algo pode dar errado, dará”. Talvez seja capaz de interpretar essa lei p
Interpretação de Textos (Compreensão)
CEV UECE · 2018
COLUNA DE JUAN ARIAS (24/04/2018)
Qual é a única coisa que une os brasileiros e que o poder prefere esconder?
Será verdade que, como injustamente se divulga no exterior, os brasileiros estão divididos em tudo? Que nada é capaz de unir os cidadãos de um lado e do outro do arco político? Há dois brasis irreconciliáveis em tudo? A julgar pelos resultados da última pesquisa nacional do Datafolha, a resposta é não.
De acordo com essa pesquisa, quem aposta em um Brasil dividido em tudo deve se sentir frustrado. Existe um tema que vem incendiando a opinião pública nos últimos anos e que se intensificou com a condenação e prisão de Lula: o apoio à Lava Jato, cuja continuidade é defendida por 84% dos brasileiros. Apenas insignificantes 12% acham que deve terminar. O Brasil todo parece unido na luta contra a corrupção e contra as tentativas de “estancar a sangria”, sonho de tantos políticos e poderosos e até mesmo de boa parte do Supremo Tribunal Federal. (...)
Outro dado importante de uma pesquisa anterior do Datafolha confirma que os brasileiros concordam, quase unanimemente, que a Lava Jato deve seguir seu caminho: em 22 anos, é a primeira vez que a corrupção é a maior preocupação do país. Não é a violência? Não. A corrupção já preocupava quatro vezes mais em 2015. E a educação? Também não. Preocupa quatro vezes menos que a corrupção. Não seria economia, ou o desemprego, a maior preocupação dos brasileiros? Não, a corrupção preocupa cinco vezes mais. E a saúde, a angústia das filas nos hospitais? Nem isso. A corrupção interessa duas vezes mais que a saúde.
Será que os pré-candidatos à presidência tomaram consciência de que a sociedade como um todo, pobres e ricos, continua a favor da luta contra a corrupção? E os governadores, senadores e deputados que pretendem ser reeleitos? Terão percebido os excelentíssimos magistrados do Supremo que a única coisa que parece unir os brasileiros é a luta contra a corrupção, e quase 60% defendem a prisão após condenação em segunda instância sem esperar pelos recursos a instâncias superiores? E que a grande maioria é contra e, pelo que tudo indica, vai permanecer contra o foro privilegiado?
(...)
Não é segredo que, no Brasil, antes da Lava Jato, a Justiça procurava ser humana e respeitosa com os condenados importantes, para quem a presunção de inocência deveria ser sagrada. O condenado sem nome tornava-se, por outro lado, um número frio e sem alma.
Um povo que foi capaz de metabolizar sem dramas nem tumultos a prisão de Lula e dos grandes industriais do país acusados de corrupção talvez seja mais solidamente democrático e socialmente mais saudável do que uma minoria exaltada se esforça para negar. Se for esse o caso, é uma injustiça grave apresentar, no exterior, um Brasil à beira de um descarrilamento democrático, um golpe militar ou uma guerra civil, como vi escrito em jornais sérios. É injusto porque é falso. O que o mundo deve saber é que, no Brasil, até os mais pobres estão mais preocupados com a corrupção dos poderosos do que com a própria economia, algo que só[ seria concebível em países com velhas raízes democráticas.
Às vezes, chego a pensar que este país pode até dar uma reviravolta na teoria de Murphy, segundo a qual “se algo pode dar errado, dará”. Talvez seja capaz de interpretar essa lei pessimista mudando-a para o lado positivo: “se algo pode dar certo, dará”. E se nas próximas eleições, apesar de todo o pessimismo, acabar, por exemplo, acontecendo o melhor?
Fonte:
https://brasil.elpais.com/brasil/2018/04/24/opinio
n/1524576905_686832.html. Acesso
em03/06/2018. Adaptação.
No que concerne ao propósito comunicativo do texto, é correto afirmar que o colunista
- tem claramente o objetivo de desconstruir uma concepção errônea a respeito do Brasil no exterior.
- utiliza os dados da pesquisa Datafolha para comprovar a positividade da visão que se tem do Brasil no exterior.
- alerta os pré-candidatos a cargos públicos e eletivos quanto à preocupação maior da sociedade com a educação, saúde, economia.
- denuncia que até hoje, no Brasil, a Justiça é humana e respeitosa com os condenados importantes, mas não com o cidadão anônimo.
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Gabarito
A
Comentário do professor
O colunista tem como objetivo central desconstruir uma concepção errônea que circula no exterior sobre o Brasil.
Ele faz isso ao confrontar narrativas alarmistas com dados concretos: cita pesquisas do Datafolha que mostram ampla concordância nacional na luta contra a corrupção, inclusive percentuais e comparações que revelam prioridades coletivas.
Por meio de perguntas retóricas, contraste entre imagens externas e a realidade interna e exemplos históricos, o texto demonstra que o país não está irremediavelmente dividido nem à beira de um colapso democrático.
O tom argumentativo, apoiado em estatística e em confrontação direta à imagem estrangeira, deixa claro o propósito de corrigir a visão distorcida sobre o Brasil.
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