Questão FC559188
de campo no riacho que passa pelos fundos?
Interpretação de Textos (Compreensão)
CEV UECE · 2018
HÁ DOIS BRASIS
Marina Colasanti
Toda noite acompanho as declarações
nacionais nos vídeos enviados
ao programa/projeto O Brasil Que Eu Quero.
Mas, noite após noite, cresce em mim a
sensação de uma ausência.
Onde estão os outros? Aqueles que, ao lado
das pessoas de boas intenções, constroem o
Brasil que temos?
O cidadão da pequena cidade de um interior
perdido no meio desse país enorme, manda
seu vídeo tirado diante de uma obra
inacabada , mais uma , e diz que quer um
Brasil de obras terminadas e bom
aproveitamento do dinheiro público.
Mas vários se beneficiaram com aquela
obra, mesmo que tenham ficado com pouco
mais que as fundações. Houve quem levasse
propina para facilitar uma licitação, quem
vendesse material superfaturado, quem
lavasse o dinheiro sujo da transação, houve quem ganhasse votos por propor aquela
obra.
Onde estão suas vozes surdas, que a gente
não ouve? Falam baixo mas falam, nos
escritórios onde as transações se fecham, nos restaurantes onde dinheiros são
entregues, nos aeroportos onde encontros
são marcados.
E os que murmuram não querem obras
acabadas e lícitas, não querem o bom
aproveitamento do dinheiro público. Querem
manter o bom aproveitamento privado do
dinheiro público.
Um pescador no seu barco grava o vídeo
mostrando a água imunda ao redor e
suspende a rede cheia de detritos. Pede um
Brasil que respeite a natureza e que a
proteja.
Onde estão os que jogaram os detritos?
Onde estão aqueles que colaboram largando
um papel aqui, um entulho acolá, um sofá
imprestável na lagoa, sacos plásticos em
toda parte? Não gravaram nenhum vídeo
dizendo, “o Brasil que eu quero é esse
mesmo, de liberdade individual sem ligar
pro coletivo, um país onde eu posso jogar
papel no chão porque pago imposto pro gari
limpar”.
Na comunidade, a mãe com filho no colo
grava seu vídeo diante de uma vala a céu
aberto e diz que quer um país com
saneamento básico para todos e sobretudo
para as crianças.
Cadê aqueles tantos que ligam o esgoto da
sua casa na rede pluvial, porque sai mais
barato que fazer uma obra ligando esgoto
a esgoto? Ou os que jogam o esgoto da casa
de campo no riacho que passa pelos fundos?
Esses são espertos, não contam sua façanha
nem para o vizinho, não postam no Face
fotos de canos, mas desejam, desejam
muito que a vigilância não bata à sua porta
e que tudo continue como está nesse Brasil
que é nosso.
Não estava nos vídeos mas poderia estar, a
reportagem do Fantástico revelando como
se faz um gato chique para driblar o
contador de energia. Os funcionários disseram estar no ramo faz tempo, atuam
em casas de classe média e classe média
alta, belas casas de condomínio. Para
compensar tanto miau, os demais , ou
seja, nós , pagamos 15% a mais nas nossas contas de luz.
Seria apenas justo que os proprietários
dessas casas mandassem vídeos dizendo
que o Brasil que eles querem é esse mesmo,
preservando seu direito de ter o bichano de
estimação. E os funcionários que fazem a
instalação poderiam aparecer ao fundo,
talvez batendo palmas.
A maioria dos vídeos pede políticos honestos
e o fim da corrupção. Se todos os políticos e
todos os corruptos e todos os corruptores e
todos os doleiros mandassem vídeos
defendendo o Brasil do seu negócio,
teríamos uma enxurrada pior que a de
Mariana.
Olhando os vídeos inseridos cada noite no
Jornal Nacional mal se percebe, mas o que
estamos assistindo é a luta, talvez decisiva,
entre o Brasil que nós queremos e o Brasil
que eles querem, entre os que expressam
em voz alta seu querer, e aqueles que,
calados, realizam o seu.
Fonte: http://www.marinacolasanti.com/2018/06/ha-dois-brasis.html. Acesso em 12/08/2018.
Considerando o universo de referência da crônica em estudo, é correto afirmar que
- faz parte do domínio literário, portanto trata de um mundo fictício, onde os objetos referidos adquirem contornos eminentemente simbólicos.
- prevê internautas como destinatários, o que leva a autora a usar uma formulação linguística menos elaborada e opções linguísticas menos prestigiadas.
- aborda questões do mundo real, do cotidiano concreto das pessoas que estão inevitavelmente expostas às vicissitudes do dia a dia.
- apresenta o assunto de forma genérica evidenciada por uma linguagem impessoal cujo enunciador parece ausentar-se e dar a voz a um outro – universal.
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Gabarito
Certo
Comentário do professor
A alternativa C é correta porque a crônica privilegia o cotidiano concreto das pessoas e as situações que elas vivenciam no dia a dia.
O texto reúne cenas pessoais e delimitadas , obras inacabadas, água suja, valas a céu aberto, ligações clandestinas de esgoto, gatos no contador de luz , que revelam problemas sociais por meio de episódios comuns. Essas imagens mostram vidas expostas às vicissitudes práticas de morar e conviver.
O narrador usa testemunhos em vídeo e relatos simples para dar voz a cidadãos reais, transformando episódios particulares em crítica social. Assim, o universo de referência é o mundo real e cotidiano, elemento definidor do gênero crônica.
Portanto, a crônica aborda diretamente as experiências rotineiras e concretas que fundamentam sua reflexão crítica.
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