Questão FC559189
de campo no riacho que passa pelos fundos?
Interpretação de Textos (Compreensão)
CEV UECE · 2018
HÁ DOIS BRASIS
Marina Colasanti
Toda noite acompanho as declarações
nacionais nos vídeos enviados
ao programa/projeto O Brasil Que Eu Quero.
Mas, noite após noite, cresce em mim a
sensação de uma ausência.
Onde estão os outros? Aqueles que, ao lado
das pessoas de boas intenções(A), constroem o
Brasil que temos?
O cidadão da pequena cidade de um interior
perdido no meio desse país enorme, manda
seu vídeo tirado diante de uma obra
inacabada , mais uma , e diz que quer um
Brasil de obras terminadas(C) e bom
aproveitamento do dinheiro público.
Mas vários se beneficiaram com aquela
obra, mesmo que tenham ficado com pouco
mais que as fundações. Houve quem levasse
propina para facilitar uma licitação, quem
vendesse material superfaturado, quem
lavasse o dinheiro sujo da transação, houve quem ganhasse votos por propor aquela
obra.
Onde estão suas vozes surdas, que a gente
não ouve? Falam baixo mas falam(D), nos
escritórios onde as transações se fecham, nos restaurantes onde dinheiros são
entregues, nos aeroportos onde encontros
são marcados.
E os que murmuram não querem obras
acabadas e lícitas, não querem o bom
aproveitamento do dinheiro público. Querem
manter o bom aproveitamento privado do
dinheiro público.
Um pescador no seu barco grava o vídeo
mostrando a água imunda ao redor e
suspende a rede cheia de detritos. Pede um
Brasil que respeite a natureza e que a
proteja.
Onde estão os que jogaram os detritos?
Onde estão aqueles que colaboram largando
um papel aqui, um entulho acolá, um sofá
imprestável na lagoa, sacos plásticos em
toda parte? Não gravaram nenhum vídeo
dizendo, “o Brasil que eu quero é esse
mesmo, de liberdade individual sem ligar
pro coletivo, um país onde eu posso jogar
papel no chão porque pago imposto pro gari
limpar”.
Na comunidade, a mãe com filho no colo
grava seu vídeo diante de uma vala a céu
aberto e diz que quer um país com
saneamento básico para todos e sobretudo
para as crianças.
Cadê aqueles tantos que ligam o esgoto da
sua casa na rede pluvial, porque sai mais
barato que fazer uma obra ligando esgoto
a esgoto? Ou os que jogam o esgoto da casa
de campo no riacho que passa pelos fundos?
Esses são espertos, não contam sua façanha
nem para o vizinho, não postam no Face
fotos de canos, mas desejam, desejam
muito que a vigilância não bata à sua porta
e que tudo continue como está nesse Brasil
que é nosso.
Não estava nos vídeos mas poderia estar, a
reportagem do Fantástico revelando como
se faz um gato chique para driblar o
contador de energia. Os funcionários disseram estar no ramo faz tempo, atuam
em casas de classe média e classe média
alta, belas casas de condomínio. Para
compensar tanto miau, os demais , ou
seja, nós , pagamos 15% a mais nas nossas contas de luz.
Seria apenas justo que os proprietários
dessas casas mandassem vídeos dizendo
que o Brasil que eles querem é esse mesmo,
preservando seu direito de ter o bichano de
estimação. E os funcionários que fazem a
instalação poderiam aparecer ao fundo,
talvez batendo palmas.
A maioria dos vídeos pede políticos honestos
e o fim da corrupção. Se todos os políticos e
todos os corruptos e todos os corruptores e
todos os doleiros mandassem vídeos
defendendo o Brasil do seu negócio,
teríamos uma enxurrada pior que a de
Mariana.
Olhando os vídeos inseridos cada noite no
Jornal Nacional mal se percebe, mas o que
estamos assistindo é a luta, talvez decisiva,
entre o Brasil que nós queremos e o Brasil
que eles querem, entre os que expressam
em voz alta seu querer,(B) e aqueles que,
calados, realizam o seu.
Fonte: http://www.marinacolasanti.com/2018/06/ha-dois-brasis.html. Acesso em 12/08/2018.
A cronista desenvolve sua argumentação contrapondo dois Brasis. Assinale a opção em que NÃO há distinção em relação aos agentes citados.
- “as pessoas bem-intencionadas” são “aquelas que, caladas, constroem o Brasil que temos”.
- “os que expressam em voz alta o seu querer” são os mesmos que “falam baixo nos escritórios”.
- “os que querem manter o bom aproveitamento privado do dinheiro público” são os mesmos que “querem um Brasil de obras terminadas”.
- “os que dizem que o Brasil que querem é o de liberdade individual sem ligar pro coletivo” é o mesmo “dos que falam baixo, mas falam”.
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Gabarito
D
Comentário do professor
A alternativa aponta que não há distinção entre “os que dizem querer um Brasil de liberdade individual” e “os que falam baixo, mas falam”. Isso ocorre porque ambos representam, no texto, agentes que sustentam o mesmo modelo social: priorizam o benefício privado em prejuízo do bem coletivo.
A prova textual aparece em dois blocos: a passagem de “falam baixo mas falam” identifica atores que combinam propinas e negociatas em escritórios, restaurantes e aeroportos; os exemplos do cidadão que joga lixo, liga esgoto na rede pluvial e faz gato na energia ilustram quem, em nome da liberdade individual, pratica atos que corroem o interesse público.
Portanto, não há diferença essencial entre esses grupos: ambos agem discretamente para manter o Brasil que lhes é conveniente, cumprindo a mesma função de defesa do aproveitamento privado do dinheiro e dos bens públicos.
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