Questão FC559202
A casa José Paulo Paes Vendam logo esta casa, ela está cheia de fantasmas. Na livraria, há um avô que faz cartões de boas-festas com corações de purpurina. Na tipografia, um tio qu
Interpretação de Textos (Compreensão)
CEV UECE · 2018
A casa
José Paulo Paes
Vendam logo esta casa, ela está cheia de fantasmas.
Na livraria, há um avô que faz cartões de boas-festas com corações de purpurina. Na tipografia, um tio que imprime avisos fúnebres e programas de circo. Na sala de visitas, um pai que lê romances policiais até o fim dos tempos. No quarto, uma mãe que está sempre parindo a última filha. Na sala de jantar, uma tia que lustra cuidadosamente o seu próprio caixão. Na copa, uma prima que passa a ferro todas as mortalhas da família. Na cozinha, uma avó que conta noite e dia histórias do outro mundo. No quintal, um preto velho que morreu na Guerra do Paraguai rachando lenha. E no telhado um menino medroso que espia todos eles; só que está vivo: trouxe-o até ali o pássaro dos sonhos. Deixem o menino dormir, mas vendam a casa, vendam-na depressa. Antes que ele acorde e se descubra também morto.
PAES, José Paulo. Prosas seguidas de Odes mínimas. São Paulo, Cia. das Letras, 1992.
Assinale a assertiva que NÃO condiz com as questões temáticas e estéticas presentes no poema.
- O poema A casa é o exemplo de um texto poético que se pauta em uma descrição racional e lógica da realidade, apresentando, para isso, elementos que não ultrapassam o mundo da imaginação.
- A poesia de José Paulo Paes mostra que resgatar um passado distante para trazer à memória a imagem de pessoas que já não mais existem é uma maneira de ter consciência da passagem fugaz do tempo, o que, consequentemente, pode trazer à tona a ideia de envelhecimento e de finitude.
- Pela leitura do poema, entende-se que a recuperação do passado pode se dar, simbolicamente, pelo auxílio da figura do “pássaro dos sonhos”, cuja função é auxiliar o homem a ter uma visão mais nítida da realidade transitória da vida.
- Para compor o seu poema, o poeta se utiliza de recursos próprios da estética surrealista através de um conjunto de imagens que têm, entre si, uma relação desconexa e absurda, à semelhança de um pensamento livre, regrado pelos impulsos do subconsciente.
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Gabarito
A
Comentário do professor
A alternativa A é incorreta porque assume que o poema apresenta uma descrição racional da realidade, quando na verdade ele explora o fantástico e o surreal.
O texto reúne imagens impossíveis em convívio cotidiano: parentes que preparam caixões e mortalhas, um morto que racha lenha e um menino trazido pelo "pássaro dos sonhos" que pode já estar morto. Essas ocorrências transgridem a lógica empírica e criam um clima de estranhamento.
O autor usa recursos como personificação, hipérbole e justaposição irritante entre o doméstico e o sobrenatural para produzir efeito poético, não uma descrição objetiva.
Portanto, afirmar que o poema mantém-se estritamente no mundo da imaginação racional é inadequado: a peça literária tensiona realidade e fantasia, buscando efeito estético pela ruptura com a lógica cotidiana.
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