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Questão FC559205

TEXTO 1 Sons que confortam Martha Medeiros Eram quatro da manhã quando seu pai sofreu um colapso cardíaco. Só estavam os três na casa: o pai, a mãe e ele, um garoto de 13 anos. Cha

Interpretação de Textos (Compreensão)

CEV UECE · 2018

TEXTO 1

 

Sons que confortam

 

Martha Medeiros

 

Eram quatro da manhã quando seu pai sofreu um colapso cardíaco. Só estavam os três na casa: o pai, a mãe e ele, um garoto de 13 anos. Chamaram o médico da família. E aguardaram. E aguardaram. E aguardaram. Até que o garoto escutou um barulho lá fora. É ele que conta, hoje, adulto: Nunca na vida ouvira um som mais lindo, mais calmante, do que os pneus daquele carro amassando as folhas de outono empilhadas junto ao meio-fio.

 

Inesquecível, para o menino, foi ouvir o som do carro do médico se aproximando, o homem que salvaria seu pai. Na mesma hora em que li esse relato, imaginei um sem-número de sons que nos confortam. A começar pelo choro na sala de parto. Seu filho nasceu. E o mais aliviante para pais que possuem adolescentes baladeiros: o barulho da chave abrindo a fechadura da porta. Seu filho voltou.

 

E pode parecer mórbido para uns, masoquismo para outros, mas há quem mate a saudade assim: ouvindo pela enésima vez o recado na secretária eletrônica de alguém que já morreu.

 

Deixando a categoria dos sons magnânimos para a dos sons cotidianos: a voz no alto-falante do aeroporto dizendo que a aeronave já se encontra em solo e o embarque será feito dentro de poucos minutos.

 

O sinal, dentro do teatro, avisando que as luzes serão apagadas e o espetáculo irá começar.

 

O telefone tocando exatamente no horário que se espera, conforme o combinado. Até a musiquinha que antecede a chamada a cobrar pode ser bem-vinda, se for grande a ansiedade para se falar com alguém distante.

 

O barulho da chuva forte no meio da madrugada, quando você está no quentinho da sua cama.

 

Uma conversa em outro idioma na mesa ao lado da sua, provocando a falsa sensação de que você está viajando, de férias em algum lugar estrangeiro. E estando em algum lugar estrangeiro, ouvir o seu idioma natal sendo falado por alguém que passou, fazendo você lembrar que o mundo não é tão vasto assim.

 

O toque do interfone quando se aguarda ansiosamente a chegada do namorado. Ou mesmo a chegada da pizza.

 

O aviso sonoro de que entrou um torpedo no seu celular.

 

A sirene da fábrica anunciando o fim de mais um dia de trabalho.

 

O sinal da hora do recreio.

 

A música que você mais gosta tocando no rádio do carro. Aumente o volume.

 

O aplauso depois que você, nervoso, falou em público para dezenas de desconhecidos.

 

O primeiro eu te amo dito por quem você também começou a amar.

 

E o mais raro de todos: o silêncio absoluto.

 

MEDEIROS, Martha. Feliz por nada. São Paulo: L&PM Editores, 2011.

 

Considerando o propósito da crônica de Martha Medeiros, assinale a afirmação verdadeira.

  1. O texto tem, como principal objetivo, contar como os sons fazem parte do nosso cotidiano, ora consolando-nos, ora incomodando-nos.
  2. A crônica tem a preocupação de refletir sobre como variados tipos de sons acompanham inúmeros momentos da nossa vida, trazendo-nos alento.
  3. O interesse principal da crônica é o de mostrar como a escuta de determinados sons podem trazer grande alegria e alívio aos pais em diferentes fases da vida de seus filhos.
  4. A finalidade maior do texto de Martha Medeiros é protestar contra nossa exposição involuntária a diversos sons barulhentos ao longo de nossa vida na grande cidade.
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Gabarito

B

Comentário do professor

A crônica de Martha Medeiros tem como propósito principal refletir sobre como variados sons acompanham momentos distintos da vida e nos trazem alento.

O texto abre com uma cena marcante: o menino que, ao ouvir o carro do médico, sente alívio imediato. A partir daí, a autora faz uma longa enumeração de exemplos cotidianos que confortam, do choro na sala de parto ao toque do interfone, da chuva no telhado ao silêncio absoluto.

Essa sequência de imagens sonoras, apresentada em linguagem sensorial e envolvente, cria uma reflexão sobre a função reconfortante dos sons nas relações e nas lembranças.

Portanto, o objetivo do texto é contemplativo: mostrar como a experiência auditiva pontua e consola nossa existência.

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