Questão FC559206
TEXTO 1 Sons que confortam Martha Medeiros Eram quatro da manhã quando seu pai sofreu um colapso cardíaco. Só estavam os três na casa: o pai, a mãe e ele, um garoto de 13 anos. Cha
Interpretação de Textos (Compreensão)
CEV UECE · 2018
TEXTO 1
Sons que confortam
Martha Medeiros
Eram quatro da manhã quando seu pai sofreu um colapso cardíaco. Só estavam os três na casa: o pai, a mãe e ele, um garoto de 13 anos. Chamaram o médico da família. E aguardaram. E aguardaram. E aguardaram. Até que o garoto escutou um barulho lá fora. É ele que conta, hoje, adulto: Nunca na vida ouvira um som mais lindo, mais calmante, do que os pneus daquele carro amassando as folhas de outono empilhadas junto ao meio-fio.
Inesquecível, para o menino, foi ouvir o som do carro do médico se aproximando, o homem que salvaria seu pai. Na mesma hora em que li esse relato, imaginei um sem-número de sons que nos confortam. A começar pelo choro na sala de parto. Seu filho nasceu. E o mais aliviante para pais que possuem adolescentes baladeiros: o barulho da chave abrindo a fechadura da porta. Seu filho voltou.
E pode parecer mórbido para uns, masoquismo para outros, mas há quem mate a saudade assim: ouvindo pela enésima vez o recado na secretária eletrônica de alguém que já morreu.
Deixando a categoria dos sons magnânimos para a dos sons cotidianos: a voz no alto-falante do aeroporto dizendo que a aeronave já se encontra em solo e o embarque será feito dentro de poucos minutos.
O sinal, dentro do teatro, avisando que as luzes serão apagadas e o espetáculo irá começar.
O telefone tocando exatamente no horário que se espera, conforme o combinado. Até a musiquinha que antecede a chamada a cobrar pode ser bem-vinda, se for grande a ansiedade para se falar com alguém distante.
O barulho da chuva forte no meio da madrugada, quando você está no quentinho da sua cama.
Uma conversa em outro idioma na mesa ao lado da sua, provocando a falsa sensação de que você está viajando, de férias em algum lugar estrangeiro. E estando em algum lugar estrangeiro, ouvir o seu idioma natal sendo falado por alguém que passou, fazendo você lembrar que o mundo não é tão vasto assim.
O toque do interfone quando se aguarda ansiosamente a chegada do namorado. Ou mesmo a chegada da pizza.
O aviso sonoro de que entrou um torpedo no seu celular.
A sirene da fábrica anunciando o fim de mais um dia de trabalho.
O sinal da hora do recreio.
A música que você mais gosta tocando no rádio do carro. Aumente o volume.
O aplauso depois que você, nervoso, falou em público para dezenas de desconhecidos.
O primeiro eu te amo dito por quem você também começou a amar.
E o mais raro de todos: o silêncio absoluto.
MEDEIROS, Martha. Feliz por nada. São Paulo: L&PM Editores, 2011.
Em relação às particularidades do estilo adotado na crônica Sons confortantes, NÃO é lícito dizer que
- ao tratar de temas ligados à vida cotidiana, a crônica trata as cenas corriqueiras com banalidade e insignificância.
- há, na crônica, o uso da linguagem coloquial com marcas de oralidade na escrita.
- o texto trata de assuntos relevantes sobre a vida cotidiana com um tom de conversa fiada.
- a crônica constrói uma narrativa com um caráter informal, familiar e, ao mesmo tempo, intimista ao relatar fatos da vida comum.
Mostrar resposta e comentário
Gabarito
A
Comentário do professor
A afirmação é incorreta porque a crônica não trata o cotidiano com banalidade e insignificância. Pelo contrário, o texto destaca o valor emocional de sons comuns, transformando-os em sinais carregados de sentido afetivo.
Provas no próprio texto incluem a valorização explícita de fenômenos simples, como o barulho dos pneus nas folhas, o choro na sala de parto, o toque do interfone e o silêncio absoluto. Essas imagens são apresentadas como experiências reconfortantes ou significativas, não como meros detalhes irrelevantes.
O autor utiliza enumeração e linguagem avaliativa para ressignificar o cotidiano: termos como "mais lindo, mais calmante" e a acumulação de exemplos produzem um efeito de elevação e de atenção sensível ao trivial.
Portanto, afirmar que a crônica banaliza as cenas corriqueiras é inconsistente com sua postura estética e afetiva, que confere valor e profundidade ao ordinário.
Conteúdo do catálogo FC Concursos · Atualizado em