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Questão FC559207

TEXTO 1 Sons que confortam Martha Medeiros Eram quatro da manhã quando seu pai sofreu um colapso cardíaco. Só estavam os três na casa: o pai, a mãe e ele, um garoto de 13 anos. Cha

Interpretação de Textos (Compreensão)

CEV UECE · 2018

TEXTO 1

 

Sons que confortam

 

Martha Medeiros

 

Eram quatro da manhã quando seu pai sofreu um colapso cardíaco. Só estavam os três na casa: o pai, a mãe e ele, um garoto de 13 anos. Chamaram o médico da família. E aguardaram. E aguardaram. E aguardaram. Até que o garoto escutou um barulho lá fora. É ele que conta, hoje, adulto: Nunca na vida ouvira um som mais lindo, mais calmante, do que os pneus daquele carro amassando as folhas de outono empilhadas junto ao meio-fio.

 

Inesquecível, para o menino, foi ouvir o som do carro do médico se aproximando, o homem que salvaria seu pai. Na mesma hora em que li esse relato, imaginei um sem-número de sons que nos confortam. A começar pelo choro na sala de parto. Seu filho nasceu. E o mais aliviante para pais que possuem adolescentes baladeiros: o barulho da chave abrindo a fechadura da porta. Seu filho voltou.

 

E pode parecer mórbido para uns, masoquismo para outros, mas há quem mate a saudade assim: ouvindo pela enésima vez o recado na secretária eletrônica de alguém que já morreu.

 

Deixando a categoria dos sons magnânimos para a dos sons cotidianos: a voz no alto-falante do aeroporto dizendo que a aeronave já se encontra em solo e o embarque será feito dentro de poucos minutos.

 

O sinal, dentro do teatro, avisando que as luzes serão apagadas e o espetáculo irá começar.

 

O telefone tocando exatamente no horário que se espera, conforme o combinado. Até a musiquinha que antecede a chamada a cobrar pode ser bem-vinda, se for grande a ansiedade para se falar com alguém distante.

 

O barulho da chuva forte no meio da madrugada, quando você está no quentinho da sua cama.

 

Uma conversa em outro idioma na mesa ao lado da sua, provocando a falsa sensação de que você está viajando, de férias em algum lugar estrangeiro. E estando em algum lugar estrangeiro, ouvir o seu idioma natal sendo falado por alguém que passou, fazendo você lembrar que o mundo não é tão vasto assim.

 

O toque do interfone quando se aguarda ansiosamente a chegada do namorado. Ou mesmo a chegada da pizza.

 

O aviso sonoro de que entrou um torpedo no seu celular.

 

A sirene da fábrica anunciando o fim de mais um dia de trabalho.

 

O sinal da hora do recreio.

 

A música que você mais gosta tocando no rádio do carro. Aumente o volume.

 

O aplauso depois que você, nervoso, falou em público para dezenas de desconhecidos.

 

O primeiro eu te amo dito por quem você também começou a amar.

 

E o mais raro de todos: o silêncio absoluto.

 

MEDEIROS, Martha. Feliz por nada. São Paulo: L&PM Editores, 2011.

 

A autora da crônica cria duas categorias para classificar os sons com que nos deparamos no dia a dia: sons magnânimos e sons cotidianos. Leia os trechos da crônica apresentados a seguir e escreva SM se o trecho pertencer à categoria do som magnânimo ou SC se fizer parte da categoria do som cotidiano.

 

( ) “O sinal da hora do recreio.”

( ) “O primeiro eu te amo dito por quem você também começou a amar.”

( ) “[...] o barulho da chave abrindo a fechadura da porta. Seu filho voltou.”

( ) “[...] o recado na secretária eletrônica de alguém que já morreu.”

( ) “O toque do interfone quando se aguarda ansiosamente a chegada do namorado.”

 

A sequência correta, de cima para baixo, é:

  1. SC, SC, SM, SM, SC.
  2. SC, SM, SC, SM, SC.
  3. SM, SM, SC, SC, SM.
  4. SM, SC, SM, SC, SM.
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Gabarito

A

Comentário do professor

A sequência SC, SC, SM, SM, SC está correta porque a autora divide sons que confortam em duas classes: sons magnânimos, de carga emocional profunda ou eventos excepcionais, e sons cotidianos, sinais rotineiros que trazem conforto no dia a dia.

1. “O sinal da hora do recreio.” , classificado como SC por ser um sinal rotineiro ligado a uma rotina escolar, um conforto cotidiano.
2. “O primeiro eu te amo…” , aparece entre exemplos do cotidiano afetivo e, no texto, funciona como um momento reconfortante dentro da rotina emocional, logo SC.
3. “o barulho da chave… Seu filho voltou.” , ligado a um alívio existencial e à chegada salvadora, é um SM.
4. “o recado na secretária eletrônica de alguém que já morreu.” , trata perda e saudade profunda, portanto SM.
5. “O toque do interfone quando se aguarda…” , sinal de espera e expectativa cotidiana, caracterizando SC.

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