Questão FC559245
A caminho do brejo A sociedade dá de ombros, vencida pela inércia Cora Rónai Um país não vai para o brejo de um momento para o outro , como se viesse andando na estradinha, qual va
Tipologia e Gênero Textual
CEV UECE · 2018
A caminho do brejo
A sociedade dá de ombros, vencida pela inércia
Cora Rónai
Um país não vai para o brejo de um momento para o outro , como se viesse andando na estradinha, qual vaca, cruzasse uma cancela e, de repente, saísse do barro firme e embrenhasse pela lama. Um país vai para o brejo aos poucos, construindo a sua desgraça ponto por ponto, um tanto de corrupção aqui, um tanto de demagogia ali, safadeza e impunidade de mãos dadas. Há sinais constantes de perigo, há abundantes evidências de crime por toda a parte, mas a sociedade dá de ombros, vencida pela inércia e pela audácia dos canalhas.
(...)
Um país vai para o brejo quando políticos lutam por cargos em secretarias e ministérios não porque tenham qualquer relação com a área, mas porque secretarias e ministérios têm verbas , e isso é noticiado como fato corriqueiro da vida pública.
Um país vai para o brejo quando representantes do povo deixam de ser povo assim que são eleitos, quando se criam castas intocáveis no serviço público, quando esses brâmanes acreditam que não precisam prestar contas a ninguém , e isso é aceito como normal por todo mundo.
Um país vai para o brejo quando as suas escolas e os seus hospitais públicos são igualmente ruins, e quando os seus cidadãos perdem a segurança para andar nas ruas, seja por medo de bandido, seja por medo de polícia.
Um país vai para o brejo quando não protege os seus cidadãos, não paga aos seus servidores, esfola quem tem contracheque e dá isenção fiscal a quem não precisa.
Um país vai para o brejo quando os seus poderosos têm direito a foro privilegiado. Um país vai para o brejo quando se divide, e quando os seus habitantes passam a se odiar uns aos outros; um país vai para o brejo quando despenca nos índices de educação, mas a sua população nem repara porque está muito ocupada se ofendendo mutuamente nas redes sociais.
O Brasil caminha firme em direção ao brejo há muitas e muitas luas, mas um passo decisivo nessa direção foi dado quando Juscelino construiu Brasília, aquela farra para as empreiteiras, e quando parlamentares e funcionários públicos em geral ganharam privilégios inéditos em troca do “sacrifício” da mudança para lá.
Brasília criou um fosso entre a nomenclatura e os cidadãos comuns. A elite mora com a elite, convive com a elite e janta com a elite, sem vista para o Brasil. Os tempos épicos do faroeste acabaram há décadas, mas há os privilégios que foram mantidos, ampliados e replicados pelos estados. De todas as heranças malditas que nos deixaram, essa é a pior de todas.
(...)
Fonte: https://oglobo.globo.com/cultura/acaminho-
do-brejo-20606929#ixzz5H47dDVl5.
Acesso em 31/05/2018. Adaptado.
No que concerne ao plano composicional do texto, é correto afirmar que este
- revela um caráter fortemente explicativo, o que compromete seu viés dissertativo-argumentativo.
- é um gênero opinativo, pois um ponto de vista sobre uma questão controvertida é apresentado e defendido ao longo de todo o texto.
- desenvolve um esquema de argumentação que parte de exemplos situacionais mais específicos para mais gerais.
- começa com a explicitação da tese da autora de que um país vai para o brejo tal qual ocorre na comparação ilustrativa apresentada.
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Gabarito
B
Comentário do professor
A alternativa aponta que o texto é um gênero opinativo, pois apresenta e sustenta um ponto de vista crítico sobre a realidade social e política do país.
Desde o início há uma tese explícita , o país "vai para o brejo" , repetida como motivo central, e o restante do texto funciona como desenvolvimento que confirma essa ideia por meio de exemplos e julgamentos.
O texto usa linguagem avaliativa e termos carregados de valor, como "corrupção", "safadeza" e "impunidade", o que revela subjetividade e intenção persuasiva.
Há emprego de recursos argumentativos: enumeração de causas, exemplificação (o caso de Brasília) e contrastes que visam convencer o leitor, não apenas informar.
Portanto, trata-se de um texto destinado a persuadir, característico de um artigo de opinião ou crônica opinativa, em que a voz do autor defende consistentemente uma interpretação dos fatos.
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