Questão FC559255
A casa José Paulo Paes Vendam logo esta casa, ela está cheia de fantasmas. Na livraria, há um avô que faz cartões de boas-festas com corações de purpurina. Na tipografia, um tio qu
Tipologia e Gênero Textual
CEV UECE · 2018
A casa
José Paulo Paes
Vendam logo esta casa, ela está cheia de fantasmas.
Na livraria, há um avô que faz cartões de boas-festas com corações de purpurina. Na tipografia, um tio que imprime avisos fúnebres e programas de circo. Na sala de visitas, um pai que lê romances policiais até o fim dos tempos. No quarto, uma mãe que está sempre parindo a última filha. Na sala de jantar, uma tia que lustra cuidadosamente o seu próprio caixão. Na copa, uma prima que passa a ferro todas as mortalhas da família. Na cozinha, uma avó que conta noite e dia histórias do outro mundo. No quintal, um preto velho que morreu na Guerra do Paraguai rachando lenha. E no telhado um menino medroso que espia todos eles; só que está vivo: trouxe-o até ali o pássaro dos sonhos. Deixem o menino dormir, mas vendam a casa, vendam-na depressa. Antes que ele acorde e se descubra também morto.
PAES, José Paulo. Prosas seguidas de Odes mínimas. São Paulo, Cia. das Letras, 1992.
A ordem para vender a casa aparece indicada no início - “Vendam logo esta casa” - e no final do poema – “Deixem o menino dormir, mas vendam a casa, vendam-na depressa”. O uso repetido deste enunciado se justifica pelo fato de o poeta
- alertar de uma possível briga entre familiares pela herança do imóvel.
- enfatizar a urgência da venda da casa por ela estar fortemente associada, em sua memória, à figura de pessoas mortas.
- criar um efeito poético de rima entre os versos do poema.
- destacar a monotonia de viver em uma casa habitada por pessoas já falecidas.
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Gabarito
B
Comentário do professor
A repetição do imperativo “Vendam” no começo e no final do poema funciona como recurso retórico para marcar a urgência do gesto pedido.
Ao enumerar parentes ocupando espaços da casa e vinculá‑los a imagens de morte, o eu lírico constrói uma memória doméstica infestada de fantasmas. Essa densidade de mortos transforma o lar em lugar perigoso para os vivos.
Reforçar a ordem de vender cria uma pressão emocional: a repetição intensifica o medo e a necessidade de afastamento imediato.
Além disso, a retomada final protege simbolicamente o menino vivo, adiando seu encontro com a condição morta da casa. Assim, a insistência serve para sublinhar que a venda é urgente por causa da forte associação entre casa e morte.
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