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Questão FC559271

Bom, o Herodes, é claro, ficou chutando as paredes quando soube da jogada dos magrinhos. Mandou que todo bebinski nascido nas bocas fosse cancelado. Se tiver fralda, apaga. Foi cha

Outras Questões de Português e Questões Mescladas (Interpretação de Textos ou Gramática)

CEV UECE · 2024

Texto

 

Negócio seguinte. Três reis magrinhos ouviram um plá de que tinha nascido um Guri. Viram o cometa no Oriente e tal e se flagraram que o Guri tinha pintado por lá. Os profetas, que não eram de dar cascata, já tinham dicado o troço: em Belém da Judeia vai nascer o Salvador, e tá falado. Os três magrinhos se mandaram. Mas deram o maior fora. Em vez de irem direto para Belém, como mandava o catálogo, resolveram dar uma incerta no velho Herodes, em Jerusalém. Pra quê! Chegaram lá de boca aberta e entregaram toda a trama. Perguntaram: Onde está o rei que acaba de nascer? Vimos a sua estrela no Oriente e viemos adorá-lo. Quer dizer, pegou mal. Muito mal. O velho Herodes, que era um oligão, ficou grilado. Que rei era aquele? Ele é que era o dono da praça. Mas comeu em boca e disse: Joia. Onde é que esse guri vai se apresentar? Em que canal? Quem é o empresário? Tem baixo elétrico? Quero saber tudo. Os magrinhos disseram que iam flagrar o Guri e na volta dicavam tudo para o coroa.

 

Bom. Seguiram o cometa, chegaram numa estrebaria e lá estava o Guri com a Mãe e o Pai. Sensacional. Parecia até presépio vivo. Os magrinhos encheram o Guri de presente. Era Natal, pô. Mirra, incenso, ouro, autorama. Tava na hora de darem no pé quando chega um telex. É do céu. Um anjo avisando aos magrinhos que não, repito, não voltem à presença de Herodes porque o coroa tá a fim de apagar o Guri. E, depois que os magrinhos se mandaram, chega outro telex, desta vez para o velho do Guri. Te manda e leva a família. O Herodes vem atrás de vocês e não é pra dar presente. O velho pegou a mulher e o Guri e voou para o Egito. Na estrebaria as vacas ficaram se entreolhando meio acanhadas, mas depois esqueceram tudo. Aliás, um dos carneiros, mais tarde, quis vender a história toda para um jornal de Jerusalém, mas não acertaram o tutu.

 

Bom, o Herodes, é claro, ficou chutando as paredes quando soube da jogada dos magrinhos. Mandou que todo bebinski nascido nas bocas fosse cancelado. Se tiver fralda, apaga. Foi chato. Muito chato. Morreu neném que não foi fácil. Mas o Guri tava no Egito, vivão. Pouco depois Deus achou que o Herodes tava se passando e cassou a licença dele. E mandou passar outro telex para o velho do Guri: Pode voltar. Segue carta. Mas o velho foi vivo e em vez de pintar na Judeia – onde o filho de Herodes, outro mauca, reinava foi para a Galileia, para uma cidadezinha chamada Nazaré. Ali o Guri cresceu legal. Acabou Rei mesmo, dando o maior Ibope. Aliás, os profetas já tinham dito que o Guri seria chamado Nazareno. Naquela época, profeta não dava uma fora! Se tivesse a Loteria Esportiva, já viu, né?

 

VERÍSSIMO, Luís Fernando. A História, mais ou menos. In: O nariz e outras crônicas. São Paulo: Ática, 1994, p. 30-1. (Para gostar de ler.)

 

O texto apresenta o termo “catálogo” quando o autor se refere a uma expressão presente no imaginário coletivo “figurino”. A recuperação do sentido é possível a partir do fato de que

  1. as características comuns dos gêneros catálogo e figurino são delimitadas pela situação comunicativa.
  2. os termos se constituem como opostos, mas para efeitos de humor são colocados como paralelos.
  3. os termos podem ser tomados como sinônimos quando adequados à situação comunicativa.
  4. há uma relação sinonímica entre os termos, embora o estranhamento possa causar incoerência.
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Gabarito

Certo

Comentário do professor

Os termos podem ser tomados como sinônimos quando adequados à situação comunicativa. No texto, o uso de “catálogo” não remete literalmente a um folheto, mas ao conjunto de regras e expectativas sociais sobre como agir diante do nascimento do rei, isto é, ao figurino tradicional que todos conheciam.

A recuperação desse sentido ocorre pelo contexto: a narrativa coloquial e os elementos intertextuais (profetas, estrela, Belém) orientam o leitor a entender catálogo como “roteiro” ou “norma” cultural. Trata‑se de equivalência contextual, não de identidade léxica absoluta.

Portanto, a compreensão decorre da adequação do vocábulo à situação comunicativa e da competência pragmática do leitor para interpretar a intenção irônica e metafórica do autor.

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