Questão FC559343
Ora, o cometa desapareceu, aqueles que choravam enxugaram os olhos, o mundo não se acabou, talvez eu tenha ficado um pouco triste – mas que importância tem a tristeza das crianças?
Linguagem
CEV UECE · 2025
Texto
O fim do mundo
Cecília Meireles
A primeira vez que ouvi falar no fim do mundo, o mundo para mim não tinha nenhum sentido, ainda; de modo que não me interessava nem o seu começo nem o seu fim. Lembro-me, porém, vagamente, de umas mulheres nervosas que choravam, meio desgrenhadas, e aludiam a um cometa que andava pelo céu, responsável pelo acontecimento que elas tanto temiam.
Nada disso se entendia comigo: o mundo era delas, o cometa era para elas: nós, crianças, existíamos apenas para brincar com as flores da goiabeira e as cores do tapete.
Mas, uma noite, levantaram-me da cama, enrolada num lençol, e, estremunhada, levaram-me à janela para me apresentarem à força ao temível cometa. Aquilo que até então não me interessava nada, que nem vencia a preguiça dos meus olhos pareceu-me, de repente,
maravilhoso. Era um pavão branco, pousado no ar, por cima dos telhados? Era uma noiva, que caminhava pela noite, sozinha, ao encontro da sua festa? Gostei muito do cometa. Devia sempre haver um cometa no céu, como há lua, sol, estrelas. Por que as pessoas andavam tão apavoradas? A mim não me causava medo nenhum.
Ora, o cometa desapareceu, aqueles que choravam enxugaram os olhos, o mundo não se acabou, talvez eu tenha ficado um pouco triste – mas que importância tem a tristeza das crianças?
Passou-se muito tempo. Aprendi muitas coisas, entre as quais o suposto sentido do mundo. Não duvido de que o mundo tenha sentido. Deve ter mesmo muitos, inúmeros, pois em redor de mim as pessoas mais ilustres e sabedoras fazem cada coisa que bem se vê haver um sentido do mundo peculiar a cada um.
Dizem que o mundo termina em fevereiro próximo. Ninguém fala em cometa, e é pena, porque eu gostaria de tornar a ver um cometa, para verificar se a lembrança que conservo dessa imagem do céu é verdadeira ou inventada pelo sono dos meus olhos naquela noite já muito antiga.
O mundo vai acabar, e certamente saberemos qual era o seu verdadeiro sentido. Se valeu a pena que uns trabalhassem tanto e outros tão pouco.
Porque fomos tão sinceros ou tão hipócritas, tão falsos e tão leais. Por que pensamos tanto em nós mesmos ou só nos outros. Por que fizemos voto de pobreza ou assaltamos os cofres públicos – além dos particulares. Por que mentimos tanto, com palavras tão judiciosas. Tudo isso saberemos e muito mais do que cabe enumerar numa crônica.
Se o fim do mundo for mesmo em fevereiro, convém pensarmos desde já se utilizamos este dom de viver da maneira mais digna.
Em muitos pontos da terra há pessoas, neste momento, pedindo a Deus – dono de todos os mundos – que trate com benignidade as criaturas que se preparam para encerrar a sua carreira mortal. Há mesmo alguns místicos – segundo leio – que, na Índia, lançam flores ao fogo, num rito de adoração.
Enquanto isso, os planetas assumem os lugares que lhes competem, na ordem do universo, neste universo de enigmas a que estamos ligados e no qual por vezes nos arrogamos posições que não temos – insignificantes que somos, na tremenda grandiosidade total.
Ainda há uns dias a reflexão e o arrependimento: por que não os utilizaremos? Se o fim do mundo não for em fevereiro, todos teremos fim, em qualquer mês...
Ao descrever o cometa como “um pavão branco” ou “uma noiva, que caminhava pela noite” , o enunciador mobiliza comparações que revelam um modo particular de perceber o mundo. Assim, pode-se afirmar corretamente que, no texto,
- a autora utiliza metáforas para reforçar a ideia de que o cometa representava, de fato, uma ameaça concreta à comunidade.
- as comparações buscam aproximar o cometa de explicações científicas acessíveis às crianças da época.
- a narradora pretende demonstrar que, mesmo na infância, era capaz de interpretar fenômenos naturais com objetividade e rigor.
- a experiência infantil transforma o fenômeno astronômico em fantasia e beleza, substituindo o medo coletivo por encantamento.
Mostrar resposta e comentário
Gabarito
D
Comentário do professor
A experiência infantil apresentada no texto transforma o cometa em imagens de fantasia e beleza, substituindo o medo coletivo por encantamento.
As comparações "um pavão branco" e "uma noiva, que caminhava pela noite" deslocam o fenômeno para o mundo do maravilhoso, não para o do perigo. A narradora diz explicitamente que gostou muito do cometa e que ele não lhe causava medo nenhum, sinais claros de percepção estética e afetiva.
Enquanto os adultos reagem com pânico e lágrimas, a criança integra o cometa ao céu de coisas belas, desejando sua presença como a da lua e das estrelas. Isso demonstra que a vivência infantil reconfigura o acontecimento astronômico em encanto, anulando o pânico coletivo.
Conteúdo do catálogo FC Concursos · Atualizado em