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Questão FC559344

Ora, o cometa desapareceu, aqueles que choravam enxugaram os olhos, o mundo não se acabou, talvez eu tenha ficado um pouco triste – mas que importância tem a tristeza das crianças?

Regência

CEV UECE · 2025

Texto

 

O fim do mundo

 

Cecília Meireles

 

A primeira vez que ouvi falar no fim do mundo, o mundo para mim não tinha nenhum sentido, ainda; de modo que não me interessava nem o seu começo nem o seu fim. Lembro-me, porém, vagamente, de umas mulheres nervosas que choravam, meio desgrenhadas, e aludiam a um cometa que andava pelo céu, responsável pelo acontecimento que elas tanto temiam.

 

Nada disso se entendia comigo: o mundo era delas, o cometa era para elas: nós, crianças, existíamos apenas para brincar com as flores da goiabeira e as cores do tapete.

 

Mas, uma noite, levantaram-me da cama, enrolada num lençol, e, estremunhada, levaram-me à janela para me apresentarem à força ao temível cometa. Aquilo que até então não me interessava nada, que nem vencia a preguiça dos meus olhos pareceu-me, de repente,

 

maravilhoso. Era um pavão branco, pousado no ar, por cima dos telhados? Era uma noiva, que caminhava pela noite, sozinha, ao encontro da sua festa? Gostei muito do cometa. Devia sempre haver um cometa no céu, como há lua, sol, estrelas. Por que as pessoas andavam tão apavoradas? A mim não me causava medo nenhum.

 

Ora, o cometa desapareceu, aqueles que choravam enxugaram os olhos, o mundo não se acabou, talvez eu tenha ficado um pouco triste – mas que importância tem a tristeza das crianças?

 

Passou-se muito tempo. Aprendi muitas coisas, entre as quais o suposto sentido do mundo. Não duvido de que o mundo tenha sentido. Deve ter mesmo muitos, inúmeros, pois em redor de mim as pessoas mais ilustres e sabedoras fazem cada coisa que bem se vê haver um sentido do mundo peculiar a cada um.

 

Dizem que o mundo termina em fevereiro próximo. Ninguém fala em cometa, e é pena, porque eu gostaria de tornar a ver um cometa, para verificar se a lembrança que conservo dessa imagem do céu é verdadeira ou inventada pelo sono dos meus olhos naquela noite já muito antiga.

 

O mundo vai acabar, e certamente saberemos qual era o seu verdadeiro sentido. Se valeu a pena que uns trabalhassem tanto e outros tão pouco.

 

Porque fomos tão sinceros ou tão hipócritas, tão falsos e tão leais. Por que pensamos tanto em nós mesmos ou só nos outros. Por que fizemos voto de pobreza ou assaltamos os cofres públicos – além dos particulares. Por que mentimos tanto, com palavras tão judiciosas. Tudo isso saberemos e muito mais do que cabe enumerar numa crônica.

 

Se o fim do mundo for mesmo em fevereiro, convém pensarmos desde já se utilizamos este dom de viver da maneira mais digna.

 

Em muitos pontos da terra há pessoas, neste momento, pedindo a Deus – dono de todos os mundos – que trate com benignidade as criaturas que se preparam para encerrar a sua carreira mortal. Há mesmo alguns místicos – segundo leio – que, na Índia, lançam flores ao fogo, num rito de adoração.

 

Enquanto isso, os planetas assumem os lugares que lhes competem, na ordem do universo, neste universo de enigmas a que estamos ligados e no qual por vezes nos arrogamos posições que não temos – insignificantes que somos, na tremenda grandiosidade total.

 

Ainda há uns dias a reflexão e o arrependimento: por que não os utilizaremos? Se o fim do mundo não for em fevereiro, todos teremos fim, em qualquer mês...

 

No trecho “levaram-me à janela para me apresentarem à força ao temível cometa”, a ocorrência ou ausência de crase reflete propriedades de regência. Com base nisso, assinale a afirmação verdadeira.

  1. Há crase em “à janela” porque o verbo “levar” admite complemento locativo precedido de artigo definido, mas há crase também em “à força” porque marca adjunto adverbial de modo.
  2. A crase ocorre tanto em “à janela” quanto em “à força”, mas por razões distintas: uma é regida pelo verbo; a outra compõe locução adverbial estável.
  3. A crase se justifica apenas em “à força”, pois se trata de locução adverbial cristalizada; já “à janela” não admite artigo definido por ser termo circunstancial.
  4. A crase só deve ocorrer em “à janela”, uma vez que o verbo “apresentar” exige preposição e o substantivo “força” funciona como objeto direto.
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Gabarito

B

Comentário do professor

À janela recebe crase porque o verbo levar exige a preposição a para indicar destino e o substantivo janela admite o artigo definido a; há, portanto, a junção de preposição + artigo (a + a = à).

À força apresenta crase por outra razão: trata-se de uma locução adverbial de modo formada por preposição + substantivo feminino com artigo, integrada ao verbo como adjunto adverbial. Locuções adverbiais femininas consagradas pelo uso exigem crase (ex.: à vontade, à tarde), razão pela qual escrevemos à força.

Assim, ambos os casos exigem crase, mas por propriedades sintáticas distintas: um por regência verbal que pede preposição mais artigo, o outro por ser locução adverbial estável.

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