Questão FC576090
Violência e culpa Natalia Pasternak [...] Historicamente, ciência e sociedade não estiveram ao lado de mulheres vítimas 1 de violência. Há apenas três décadas, em 1985, houve tenta
Morfologia
NC UFPR (FUNPAR) · 2023
Violência e culpa
Natalia Pasternak
[...] Historicamente, ciência e sociedade não estiveram ao lado de mulheres vítimas 1 de violência. Há apenas três décadas, em 1985, houve tentativa na Associação Americana de Psiquiatria de incluir, no Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM), o Transtorno de Personalidade Masoquista, abraçando a ideia freudiana – ultrapassada há tempos – de que a mulher fica com o agressor porque aprecia o sofrimento. A proposta foi criticada duramente por mulheres psiquiatras e psicólogas. Não há evidência científica para justificar o diagnóstico. Era apenas uma tradução do senso comum patriarcal de boteco para o “psiquiatrês”. Acuados, os psiquiatras trocaram o masoquismo por “Transtorno de Personalidade Autodestrutiva”, uma versão suavizada do diagnóstico anterior, mas que ainda assim daria margem para que mulheres encurraladas em relacionamentos terríveis fossem vistas “cientificamente” não como vítimas de um crime, mas como gente que precisa de terapia.
Mas à medida que temos mais mulheres de destaque fazendo ciência, absurdos assim vão sendo expostos e escancarados. Em 1988, a psicóloga Paula Caplan e a socióloga Margrit Eichler resolveram fazer uma nova sugestão de transtorno para ser incorporado ao DSM: o Transtorno de Personalidade Dominadora Delirante.
Os requisitos para um paciente enquadrar-se eram, entre outros: ser incapaz de expressar sentimentos e de se colocar no lugar dos outros; usar poder, silêncio ou ausência para evitar qualquer tipo de negociação ao lidar com conflito; acreditar que as mulheres são responsáveis por tudo de ruim que acontece com esse paciente, enquanto todas as coisas boas são resultado de seus próprios esforços e habilidades; necessidade incontrolável de exagerar suas conquistas e diminuir as conquistas de mulheres [...].
Elas não conseguiram aprovar a inclusão no DSM, mas exigiram que os mesmos critérios de exclusão aplicados à proposta fossem adotados globalmente. A alegação (verdadeira) de que não havia pesquisa científica para embasar o transtorno delirante deveria também pesar sobre o diagnóstico de personalidade autodestrutiva, que aliás tinha sido aprovado em votação, e não com base em revisão da evidência! A vitória foi parcial: o transtorno autodestrutivo acabou aprovado, mas como um anexo, uma subcategoria, e não como uma doença “própria”. E a redação incluiu a ressalva de que não deveria ser usado para violência doméstica.
Ciência não existe no vácuo, mas sim dentro de contexto social e histórico. Já houve diversas tentativas de sequestrar o jaleco e o microscópio para justificar machismo, racismo e outras ideias que, em diferentes momentos da história, fizeram parte do senso comum da elite de onde, tradicionalmente, são recrutados os cientistas. Aumentar a representatividade dentro da ciência é uma das maneiras de evitar que estas distorções sigam prejudicando pessoas e influenciando políticas públicas.
Disponível em: https://oglobo.globo.com/blogs/a-hora-da-ciencia/post/2023/03/violencia-e-culpa.ghtml. Adaptado.
Os termos “ainda assim” e “mas”, destacados no texto, estabelecem respectivamente relações de:
- adição – concessão.
- conclusão – adição.
- condição – condição.
- adversatividade – adversatividade.
- concessão – conclusão.
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Gabarito
D
Comentário do professor
Adversatividade. Ambos os conectores indicam relação de oposição entre enunciados: contrapõem uma ideia anterior pela apresentação de informação que limita, contradiz ou relativiza essa ideia.
"ainda assim" funciona como advérbio conjuntivo com nuance de concessão ou surpresa, equivalente a "apesar disso". Introduz um fato que frustra a expectativa criada pelo trecho precedente, marcando oposição.
"mas" é a conjunção adversativa clássica; une duas orações ou termos contrapondo diretamente uma afirmação à outra, indicando contrariedade.
Portanto, tanto "ainda assim" quanto "mas" estabelecem relações de adversatividade, cada qual com sua carga pragmática, mas ambos sinalizando oposição entre ideias.
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