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Questão FC576176

O texto a seguir é referência para a questão. Me lembro com clareza de todas as minhas professoras, mas me lembro de uma em particular. Ela se chamava Dona Ilka. Curioso: por que e

Semântica

NC UFPR (FUNPAR) · 2024

O texto a seguir é referência para a questão.

 

Me lembro com clareza de todas as minhas professoras, mas me lembro de uma em particular. Ela se chamava Dona Ilka. Curioso: por que escrevi “Dona Ilka” e não Ilka? Talvez por medo de que ela se materializasse aqui ao meu lado e exigisse o “Dona”,onde se viu tratar professora pelo primeiro nome, menino? No meu tempo ainda não se usava o “tia”. Elas podiam ser boas e até maternais, mas decididamente não eram nossas tias. A Dona Ilka não era maternal. Era uma mulher pequena com um perfil de passarinho. Um pequeno passarinho loiro. E uma fera.

 

Eu era aluno “bem-comportado”. Era um vagabundo, não aprendia nada, vivia distraído. Mas comportamento, 10. Por isto até hoje faço verdadeiras faxinas na memória, procurando embaixo de tudo e em todos os nichos a razão de ter sido, um dia, castigado pela Dona Ilka. Alguma eu devo ter feito, mas não consigo lembrar o quê. O fato é que fui posto de castigo. Que consistia em ficar de pé num canto da sala de aula, com a cara virada para a parede. (Isto tudo, já dá pra ver, foi mais ou menos lá pela Idade Média.) Mas o que eu nunca esqueci foi a Dona Ilka ter me chamado de “santinho do pau oco”.

 

Ser bem-comportado em aula não era uma decisão minha nem era nada de que me orgulhasse. Era só o meu temperamento. Mas a frase terrível da Dona Ilka sugeria que a minha boa conduta era uma simulação. Eu era um falso. Um santo falsificado! Depois disso, pelo resto da vida, não foram poucas as vezes em que um passarinho imaginário com perfil de professora pousou no meu ombro e me chamou de fingido. Os santinhos do pau oco passam a vida se questionando.

 

Luis Fernando Verissimo. O nariz e outra crônicas. São Paulo: Ática, 1995. Adaptado.

 

No trecho “Isto tudo, já dá pra ver, foi mais ou menos lá pela Idade Média”, o narrador:

  1. exagera intencionalmente para enfatizar que o castigo recebido era medieval e já não existe mais.
  2. faz uma constatação dos abusos sofridos em sala de aula pelas crianças da Idade Média.
  3. faz uma comparação entre o castigo recebido e aqueles aplicados na Idade Média.
  4. reforça a ideia de falta de lembrança do motivo pelo qual recebeu o castigo da professora.
  5. dá a entender que já faz muito tempo que recebeu o castigo, por isso não se lembra do motivo.
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Gabarito

A

Comentário do professor

A frase funciona como uma hipérbole: o narrador exagera deliberadamente ao comparar o castigo com práticas da Idade Média.

Com isso, ele ressalta a ideia de que a punição era arcaica e desproporcional, algo ultrapassado que “não se usa mais”.

O tom irônico de “já dá pra ver” mostra também uma distância temporal e afetiva, típica da memória adulta que avalia a escola com humor crítico.

Assim, o recurso retórico serve para caracterizar a professora como severa e para provocar riso e identificação no leitor, reforçando que o castigo foi cruel e datado.

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