Questão FC576514
O texto a seguir é referência para a questão. Destruição criativa 2.0 Hélio Schwartsman Não compro muito a ideia de que a inteligência artificial (IA) vai destruir o mundo. Digo-o
Interpretação de Textos (Compreensão)
NC UFPR (FUNPAR) · 2024
O texto a seguir é referência para a questão.
Destruição criativa 2.0
Hélio Schwartsman
Não compro muito a ideia de que a inteligência artificial (IA) vai destruir o mundo. Digo-o não porque tenha conhecimento privilegiado do porvir – em tese, é perfeitamente possível que as IAs sejam nossa ruína –, mas porque sei que, diante do novo, nossa tendência é sempre a de exagerar os perigos. Quem quiser uma confirmação empírica disso pode pegar nas coleções de jornais os artigos catastrofistas dos anos 1970 e 1980 que comentavam o advento dos bebês de proveta, que hoje não despertam mais polêmica.
Daí não decorre que devamos tratar as IAs com ligeireza. É uma mudança tecnológica de enorme potencial e que terá impactos, em especial sobre o emprego. Já vimos antes a chamada destruição criadora em ação. Mas, ao que tudo indica, desta vez, a aniquilação de postos de trabalho se dará em escala maior e atingirá também funções criativas ocupadas pelas elites intelectuais, que foram poupadas em viragens tecnológicas anteriores.
O “big picture”, porém, talvez não seja dos piores. Tanto Marx como Keynes anteviram um mundo em que as mudanças tecnológicas avançariam tanto que resolveriam o problema econômico da humanidade, isto é, as máquinas produziriam sozinhas e de graça tudo o que necessitamos, de comida a bens industrializados, passando por vários tipos de serviço. A dificuldade é que, como isso não vai acontecer da noite para o dia, devemos esperar uma transição complicada. E complicada não apenas em termos econômicos e sociais mas também psicológicos.
Quando conhecemos uma pessoa, uma das primeiras perguntas que lhe dirigimos é “o que você faz?”. Vivemos em sociedades em que os indivíduos se definem em larga medida por sua profissão. Tirar isso deles pode provocar um vazio existencial. É até possível que, com o problema econômico resolvido, passemos a extrair transcendência de outras atividades. Imagine um mundo de artistas. Mas isso vai exigir uma revolução anímica.
Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/colunas/helioschwartsman/2023/09/destruicao-criativa-20.shtml.
anímica: que é próprio da alma
Assinale a alternativa que aborda a tese do texto.
- A revolução das IAs causará gradativamente a destruição dos postos de trabalho dos artistas, os quais sofrerão graves problemas psicológicos.
- A substituição progressiva das funções criativas pelas IAs levantará uma questão de autoidentidade cuja superação exigirá uma transformação radical da essência humana.
- A aniquilação das funções das elites intelectuais no mercado de trabalho fará com que esses profissionais se tornem artistas no futuro.
- A transição da mão de obra humana para a das máquinas é uma mudança tecnológica prevista por pensadores antigos que já comentavam a chegada dos bebês de proveta.
- O avanço das IAs sobre as funções criativas é inversamente proporcional àquele sobre as áreas de serviços e bens industrializados.
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Gabarito
B
Comentário do professor
A alternativa afirma que a progressiva substituição das funções criativas pelas IAs gera um problema de autoidentidade e que superá‑lo exige uma transformação radical da essência humana.
O texto sustenta essa tese ao mostrar que a automação agora alcança profissões criativas antes poupadas, tornando plausível a perda do papel profissional como marcador social. Profissões definem identidades; perder esse papel pode causar um vazio existencial, conforme o autor explica.
Assim, a saída não é apenas econômica. Exige uma mudança psicológica profunda, uma revolução anímica que replantee fontes de sentido e transcendência na vida humana e reconfigure como nos definimos enquanto indivíduos.
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