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Questão FC576518

Tenho por hábito começar minhas aulas buscando esclarecer a origem e a natureza do objeto sobre o qual vamos nos debruçar durante o período letivo, daí a necessidade de começar inv

Interpretação de Textos (Compreensão)

NC UFPR (FUNPAR) · 2024

O texto a seguir é referência para a questão.

 

Literatura para ver

 

Georgina Martins

 

“Mas eles não são cegos, como é que não conseguem ler Machado de Assis?” Em 2008, esta foi a minha resposta ao pedido de ajuda de uma aluna do curso de especialização em literatura infantil e juvenil da Faculdade de Letras da UFRJ. Ela era professora do Ensino Médio da rede pública e precisava de sugestões metodológicas para ensinar literatura aos seus alunos surdos. Minha resposta, na verdade, minha pergunta, foi resultado do meu primeiro espanto diante de uma questão a qual sequer poderia supor que se tornaria minha principal indagação e meu maior desafio na prática docente.

 

A professora desejava que seus alunos surdos lessem Machado de Assis, o que, para minha ignorância, não se constituía em um problema diferente daqueles que a grande maioria dos professores de literatura enfrenta. Por isso me pus a sugerir os mais batidos conselhos: ler com eles, explicar a sintaxe de Machado, mostrar que a estrutura frasal é mais complexa do que a dos textos com os quais estão acostumados, fazer um passeio pelo contexto histórico e cultural do Brasil do século XIX, e, principalmente, fazê-los acreditar que a professora deles é uma leitora, e todo aquele papo de educação pelo exemplo.

 

A professora me repetiu que os alunos eram surdos e que, por isso, tinham muitas dificuldades com a leitura, logo, ensinar literatura para eles não era uma tarefa fácil. Confesso que não entendi quase nada do problema, porque minha ignorância no assunto me fazia pensar que a surdez não se configurava em impedimento para o aprendizado da língua portuguesa.

 

Movida pela curiosidade em adentrar em um universo de novas possibilidades e pelo desejo de ajudar a tal aluna, procurei auxílio com a professora Deize Santos, que, à época, atuava no departamento de linguística da Faculdade de Letras. Coincidentemente, ela estava às voltas com a aprovação de dois importantes cursos nessa área – uma graduação em Letras-Libras e uma pós-graduação em tradução e interpretação em língua de sinais – e não mediu esforços em partilhar todo conhecimento que havia acumulado sobre o tema. Três anos depois, por ocasião da aprovação do curso de “pós”, convidou-me para ministrar a disciplina de literatura infantil e juvenil para a turma de surdos e ouvintes que começava na Faculdade de Letras. A experiência não só me fez rever toda prática de ensino, como ainda proporcionou minha plena realização profissional, confirmando a crença de que ensinar literatura é preciso e aprender literatura é um direito de todo ser humano.

 

Tenho por hábito começar minhas aulas buscando esclarecer a origem e a natureza do objeto sobre o qual vamos nos debruçar durante o período letivo, daí a necessidade de começar investigando, juntamente com a turma, os diferentes modos de conceituar literatura e seus principais gêneros discursivos, como poesia e prosa, para, logo em seguida, entrar na discussão sobre o literário e o literal, tendo como suporte as noções linguísticas de denotação e conotação. Mas como fazer isso com alunos surdos que não têm a língua portuguesa como primeira língua?

 

Descobri que os surdos acabam por ser estrangeiros na própria pátria. Era preciso pensar o ensino de literatura de outro modo, uma literatura para ver, e só depois para ler […]

 

Disponível em: https://cienciahoje.org.br/artigo/literatura-para-ver/. Adaptado.

 

Assinale a alternativa que apresenta uma dica dada pela autora à professora que queria ensinar a literatura de Machado de Assis aos seus alunos.

  1. Explicar a estrutura das frases típica das obras do autor.
  2. Apresentar a obra de forma adaptada, utilizando sintaxe simplificada.
  3. Ler com os alunos obras portuguesas publicadas no mesmo período.
  4. Orientar os alunos a lerem a obra em voz alta.
  5. Visitar museus brasileiros do século XIX.
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Gabarito

A

Comentário do professor

Explicar a estrutura das frases significa orientar os alunos sobre a sintaxe característica dos textos de Machado de Assis: períodos longos, frequente uso de orações subordinadas, inversões e articulação por meio de sinais de pontuação.

Para alunos surdos isso é relevante porque muitos não têm a língua portuguesa como primeira língua; dissecar frases ajuda a mapear função de termos, identificar sujeito, predicado e nexos, e assim tornar o sentido visível.

Atividades práticas incluem análise de períodos, reescrita em frases simples, marcação de conectores e discussão sobre efeitos de estilo, especialmente a ironia e as nuances lexicais, que são centrais na compreensão das obras.

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