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Questão FC576519

Tenho por hábito começar minhas aulas buscando esclarecer a origem e a natureza do objeto sobre o qual vamos nos debruçar durante o período letivo, daí a necessidade de começar inv

Interpretação de Textos (Compreensão)

NC UFPR (FUNPAR) · 2024

O texto a seguir é referência para a questão.

 

Literatura para ver

 

Georgina Martins

 

“Mas eles não são cegos, como é que não conseguem ler Machado de Assis?” Em 2008, esta foi a minha resposta ao pedido de ajuda de uma aluna do curso de especialização em literatura infantil e juvenil da Faculdade de Letras da UFRJ. Ela era professora do Ensino Médio da rede pública e precisava de sugestões metodológicas para ensinar literatura aos seus alunos surdos. Minha resposta, na verdade, minha pergunta, foi resultado do meu primeiro espanto diante de uma questão a qual sequer poderia supor que se tornaria minha principal indagação e meu maior desafio na prática docente.

 

A professora desejava que seus alunos surdos lessem Machado de Assis, o que, para minha ignorância, não se constituía em um problema diferente daqueles que a grande maioria dos professores de literatura enfrenta. Por isso me pus a sugerir os mais batidos conselhos: ler com eles, explicar a sintaxe de Machado, mostrar que a estrutura frasal é mais complexa do que a dos textos com os quais estão acostumados, fazer um passeio pelo contexto histórico e cultural do Brasil do século XIX, e, principalmente, fazê-los acreditar que a professora deles é uma leitora, e todo aquele papo de educação pelo exemplo.

 

A professora me repetiu que os alunos eram surdos e que, por isso, tinham muitas dificuldades com a leitura, logo, ensinar literatura para eles não era uma tarefa fácil. Confesso que não entendi quase nada do problema, porque minha ignorância no assunto me fazia pensar que a surdez não se configurava em impedimento para o aprendizado da língua portuguesa.

 

Movida pela curiosidade em adentrar em um universo de novas possibilidades e pelo desejo de ajudar a tal aluna, procurei auxílio com a professora Deize Santos, que, à época, atuava no departamento de linguística da Faculdade de Letras. Coincidentemente, ela estava às voltas com a aprovação de dois importantes cursos nessa área – uma graduação em Letras-Libras e uma pós-graduação em tradução e interpretação em língua de sinais – e não mediu esforços em partilhar todo conhecimento que havia acumulado sobre o tema. Três anos depois, por ocasião da aprovação do curso de “pós”, convidou-me para ministrar a disciplina de literatura infantil e juvenil para a turma de surdos e ouvintes que começava na Faculdade de Letras. A experiência não só me fez rever toda prática de ensino, como ainda proporcionou minha plena realização profissional, confirmando a crença de que ensinar literatura é preciso e aprender literatura é um direito de todo ser humano.

 

Tenho por hábito começar minhas aulas buscando esclarecer a origem e a natureza do objeto sobre o qual vamos nos debruçar durante o período letivo, daí a necessidade de começar investigando, juntamente com a turma, os diferentes modos de conceituar literatura e seus principais gêneros discursivos, como poesia e prosa, para, logo em seguida, entrar na discussão sobre o literário e o literal, tendo como suporte as noções linguísticas de denotação e conotação. Mas como fazer isso com alunos surdos que não têm a língua portuguesa como primeira língua?

 

Descobri que os surdos acabam por ser estrangeiros na própria pátria. Era preciso pensar o ensino de literatura de outro modo, uma literatura para ver, e só depois para ler […]

 

Disponível em: https://cienciahoje.org.br/artigo/literatura-para-ver/. Adaptado.

 

De acordo com o texto, os alunos surdos tinham dificuldade em entender Machado de Assis porque:

  1. a biblioteca escolar não dispunha de livros suficientes.
  2. o português não era a língua materna deles.
  3. a professora da escola não sabia que eles eram surdos.
  4. a surdez afetou a capacidade intelectual deles.
  5. a disciplina de literatura não era ofertada no Ensino Médio da escola pública.
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Gabarito

B

Comentário do professor

Porque o português não era a língua materna deles.

O texto afirma que os alunos surdos não tinham o português como primeira língua, o que explica a dificuldade de compreensão de textos complexos.

Surdos normalmente usam Libras como língua primária. A leitura do português escrito entra como segunda língua, com diferenças de vocabulário, sintaxe e processamento.

Autores como Machado de Assis exigem domínio profundo da língua, especialmente pela sintaxe complexa e pelas camadas de conotação e contexto histórico, que dificultam a compreensão sem base sólida no português.

Portanto, o problema não é a surdez em si, mas o descompasso entre a língua materna dos alunos e o português escrito, exigindo métodos visuais e adaptados, uma "literatura para ver".

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