Questão FC576597
Mágicas de linguagem Hélio Schwartsman A linguagem é uma ferramenta poderosa. Tão poderosa que basta insistir por alguns anos numa propaganda bem-feita para convencer pessoas intel
Interpretação de Textos (Compreensão)
NC UFPR (FUNPAR) · 2019
Mágicas de linguagem
Hélio Schwartsman
A linguagem é uma ferramenta poderosa. Tão poderosa que basta insistir por alguns anos numa propaganda bem-feita para convencer pessoas inteligentes até de que algo que as prejudica é um direito inalienável.
Victor Klemperer (1881-1960), o filólogo judeu que conseguiu sobreviver durante a Segunda Guerra na Alemanha, registrando num diário a ascensão do nazismo, faz uma análise primorosa de como a manipulação da linguagem pode servir a propósitos ideológicos. Se você pensou na “novilíngua” de George Orwell, acertou, mas Klemperer escreveu suas observações antes do inglês, e elas diziam respeito ao mundo real, e não ao da ficção.
No Brasil, o FGTS é um bom exemplo dessa mágica operada pela linguagem. Quase todos, da esquerda à direita, passando pela própria Constituição, o tratam como um direito. Mais até, como cláusula pétrea da Carta, que só poderia ser extinta por revolução essa é a posição da OAB.
Não é preciso, porém, mais do que noções elementares de economia e desprendimento em relação às “idées reçues”* para constatar que o Fundo é mais bem descrito como um confisco do que como um direito.
Para início de conversa, num mercado de trabalho competitivo, se não houvesse FGTS, os vencimentos mensais recebidos pelos assalariados seriam 8% maiores. Na verdade, o que o FGTS faz é impor ao trabalhador uma poupança compulsória, da qual ele não pode dispor nem em emergências, cujos rendimentos são fixados pelo governo num valor que fica sistematicamente abaixo do da inflação. Nas contas da Econometrica, entre 1997 e 2017, o FGTS rendeu 202%, contra 465% da poupança, 756% do Ibovespa e 1.724% do CDI. O IPCA no período foi de 250%.
Basicamente, o governo tirou dinheiro do trabalhador. Num mundo não povoado por singularidades de linguagem, sindicatos e organizações que defendem direitos difusos pediriam o fim do FGTS, não sua perpetuação.
(Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/colunas/helioschwartsman/2019/04/magicas-de-linguagem.shtml)
Com base no texto, considere as seguintes afirmativas:
1. As observações de Klemperer diziam respeito ao mundo real, e as de Orwell, ao mundo da ficção.
2. Na quinta linha, “inglês” se refere a “novilíngua”.
3. No terceiro parágrafo, “Carta” se refere a “Constituição”.
Assinale a alternativa correta.
- Somente a afirmativa 1 é verdadeira.
- Somente a afirmativa 2 é verdadeira.
- Somente a afirmativa 3 é verdadeira.
- Somente as afirmativas 1 e 3 são verdadeiras.
- As afirmativas 1, 2 e 3 são verdadeiras.
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Gabarito
D
Comentário do professor
Somente as afirmativas 1 e 3 são verdadeiras.
No enunciado que compara Klemperer e Orwell, lê‑se: “Se você pensou na ‘novilíngua’ de George Orwell, acertou, mas Klemperer escreveu suas observações antes do inglês, e elas diziam respeito ao mundo real…” Grammaticamente, o pronome elas retoma observações, ou seja, são as observações de Klemperer que se referem ao mundo real; a menção a novilíngua aponta ao universo ficcional de Orwell.
No terceiro parágrafo o autor usa Carta como termo coesivo para retomar Constituição: “passando pela própria Constituição... cláusula pétrea da Carta” mostra que Carta é substituto referencial de Constituição, preservando sentido e evitando repetição.
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