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Questão FC576640

Esse fato não planejado, entretanto, nos dá a oportunidade de pensarmos a respeito das duas fases da vida que são extremidades de um percurso. O que há em comum entre elas?

Interpretação de Textos (Compreensão)

NC UFPR (FUNPAR) · 2019

O Texto a seguir, é referência para a questão.

O dia 1º de outubro foi dedicado ao idoso e o próximo dia 12 é a data das crianças. A proximidade das duas comemorações não foi planejada: o Dia da Criança é comemorado há quase 50 anos e lembra uma promoção de duas empresas que fabricam mercadorias para o público infantil e que criaram, dessa maneira, uma boa circunstância para o aumento de seu lucro. Aliás, é bom dizer que o índice de vendas para esse dia só é menor que o de outras duas datas exploradas comercialmente: o Natal e o Dia das Mães.

O Dia do Idoso, por sua vez, é comemorado no dia 1º há pouco tempo, e a data foi escolhida porque lembra a criação do Estatuto do Idoso. Ainda não há exploração, tampouco efeito comercial, mas creio que não demorará para que isso ocorra.

Esse fato não planejado, entretanto, nos dá a oportunidade de pensarmos a respeito das duas fases da vida que são extremidades de um percurso. O que há em comum entre elas?

Em primeiro lugar, a negação de ambas. A infância, tanto quanto a velhice, tem perdido seu lugar neste mundo. Já nascemos jovens e continuamos assim até o fim de nossa vida. É interessante perceber que adaptamos até a linguagem coloquial de modo a esconder essas condições da vida. Em relação às crianças, passamos a nos referir a elas como “baixinhos”, “pequenos” e seus correlatos, inclusive em textos jornalísticos, que usam e abusam de tais substitutos. Por certo você já ouviu a frase que afirma que a criança não é a miniatura de um adulto, não é? Mas essas palavras, que são usadas para suprimir a outra criança, apenas confirmam a tese negada na frase.

Para o velho, reservamos a palavra idoso  para situações formais – avisos de atendimento preferencial, por exemplo –, mas elegemos expressões como terceira idade  ou melhor idade  para ocultar a velhice. Aliás, li um texto escrito por um advogado recentemente que afirmou que ser chamado de velho hoje permite até processo por reparação de dano moral. Isso quer dizer que a palavra velho  transformou-se em xingamento grave, veja só! [...]

Temos orgulho de crianças que se comportam como jovens e de velhos com “espírito jovem”. Deveríamos é ter empatia e respeito com nossa infância e nossa velhice, isso sim. Por tudo isso, e por tudo aquilo que não coube neste texto dizer, poderíamos transformar as duas datas em uma, apenas: o dia dos excluídos.

(Rosely Sayão, Extremidades da vida, FSP, 08/10/09)

A frase “Já nascemos jovens e continuamos assim até o fim de nossa vida” (sublinhada no 3º parágrafo do texto):

  1. é uma ironia da autora, pois reproduz o senso comum que ela está criticando no texto.
  2. expressa a concordância da autora com a ideia de que nos sentimos jovens em qualquer idade.
  3. reconhece a verdade de que a juventude é um conceito criado pela publicidade.
  4. traduz o sentimento da autora em relação ao respeito que merecem crianças e velhos.
  5. é uma declaração que revela o quanto a autora preza pela juventude.
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Gabarito

A

Comentário do professor

Ironia: a autora usa a frase “Já nascemos jovens e continuamos assim até o fim de nossa vida” para reproduzir, de forma exagerada, o discurso dominante que ela critica.

A ironia ocorre quando se afirma algo cuja intenção real é contrária ao sentido literal. Aqui, a autora não defende a ideia, mas a encena para torná‑la absurda.

No contexto, ela fala da negação do envelhecimento e dos eufemismos usados para ocultar infância e velhice. A frase funciona como um sintoma desse comportamento: é uma hipérbole que evidencia a ilusão cultural de eterna juventude.

Portanto, a oração é recurso crítico: cita o senso comum para desmontá‑lo e mostrar sua incoerência, o que confirma a resposta correta.

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