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Questão FC576756

– Colonna, exemplifique para os nossos amigos como é que se pode seguir, ou dar mostras de seguir, um princípio fundamental do jornalismo democrático: fatos separados de opiniões.

Interpretação de Textos (Compreensão)

NC UFPR (FUNPAR) · 2015

Leia o seguinte diálogo entre os personagens Simei e Colonna, no romance Número Zero, de Umberto Eco:

– Colonna, exemplifique para os nossos amigos como é que se pode seguir, ou dar mostras de seguir, um princípio fundamental do jornalismo democrático: fatos separados de opiniões. Opiniões no Amanhã [nome do jornal] haverá inúmeras, e evidenciadas como tais, mas como é que se demonstra que em outros artigos são citados apenas fatos?

– Muito simples – disse eu. – Observem os grandes jornais de língua inglesa. Quando falam, sei lá, de um incêndio ou de um acidente de carro, evidentemente não podem dizer o que acham daquilo. Então inserem no artigo, entre aspas, as declarações de uma testemunha, um homem comum, um representante da opinião pública. Pondo-se aspas, essas afirmações se tornam fatos, ou seja, é um fato que aquele sujeito tenha expressado tal opinião. Mas seria possível supor que o jornalista tivesse dado a palavra somente a quem pensasse como ele. Portanto, haverá duas declarações discordantes entre si, para mostrar que é fato que há opiniões diferentes sobre um caso, e o jornal expõe esse fato irretorquível. A esperteza está em pôr antes entre aspas uma opinião banal e depois outra opinião, mais racional, que se assemelhe muito à opinião do jornalista. Assim o leitor tem a impressão de estar sendo informado de dois fatos, mas é induzido a aceitar uma única opinião como a mais convincente. Vamos ver um exemplo. Um viaduto desmoronou, um caminhão caiu e o motorista morreu. O texto, depois de relatar rigorosamente o fato, dirá: Ouvimos o senhor Rossi, 42 anos, que tem uma banca de jornal na esquina. Fazer o quê, foi uma fatalidade, disse ele, sinto pena desse coitado, mas destino é destino. Logo depois um senhor Bianchi, 34 anos, pedreiro que estava trabalhando numa obra ao lado, dirá: É culpa da prefeitura, que esse viaduto estava com problemas eu já sabia há muito tempo. Com quem o leitor se identificará? Com quem culpa alguém ou alguma coisa, com quem aponta responsabilidade. Está claro? O problema é no quê e como pôr aspas.

ECO, Umberto. Número Zero. Rio de Janeiro: Record, 2015, p. 55-6.

Segundo o texto, são estratégias utilizadas pelos jornais ao fazer citações:

  1.  Escolher criteriosamente as citações das testemunhas para contemplar pontos de vista divergentes sobre um mesmo fato.
  2.  Salientar os pontos de vista que mais interessam ao jornalista.
  3.  Redigir as notícias de tal forma que as opiniões sejam apresentadas como fatos.
  4.  Citar em primeiro lugar as palavras da testemunha que faz uma análise mais racional dos acontecimentos.

Estão de acordo com o texto as estratégias:

  1. 1 e 2 apenas.
  2. 1 e 4 apenas.
  3. 1, 2 e 3 apenas.
  4. 1, 3 e 4 apenas.
  5. 2, 3 e 4 apenas.
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Gabarito

Certo

Comentário do professor

A alternativa C é correta porque o texto explicita três práticas jornalísticas usadas nas citações:

Escolher depoimentos distintos para mostrar pluralidade de opinião. O narrador afirma que se coloca "duas declarações discordantes entre si" para expor como fato a existência de opiniões diferentes.

Salientar os pontos que interessam ao jornal. O texto descreve a tática de ordenar e selecionar falas de modo a induzir o leitor, citando que se pode colocar uma opinião banal antes de outra mais racional para favorecer certo ponto de vista.

Apresentar opiniões como fatos por meio de aspas. Segundo o diálogo, pondo-se aspas, essas afirmações se tornam fatos, isto é, torna-se fato que alguém expressou determinada opinião, o que confere aparente objetividade à notícia.

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