Questão FC576764
é sal, ou precisão de amor, ou simples ânsia?
Interpretação de Textos (Compreensão)
NC UFPR (FUNPAR) · 2015
Leia, atentamente, o seguinte poema:
Que pode uma criatura senão,
entre criaturas, amar?
amar e esquecer,
amar e malamar,
amar, desamar, amar?
sempre, e até de olhos vidrados, amar?
Que pode, pergunto, o ser amoroso,
sozinho, em rotação universal, senão
rodar também, e amar?
amar o que o mar traz à praia,
e o que ele sepulta, e o que, na brisa marinha,
é sal, ou precisão de amor, ou simples ânsia?
Amar solenemente as palmas do deserto,
o que é entrega ou adoração expectante,
e amar o inóspito, o áspero,
um vaso sem flor, um chão de ferro,
e o peito inerte, e a rua vista em sonho, e uma ave de rapina.
Este o nosso destino: amor sem conta,
distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas,
doação ilimitada a uma completa ingratidão,
e na concha vazia do amor a procura medrosa,
paciente, de mais e mais amor.
Amar a nossa falta mesma de amor, e na secura nossa
amar a água implícita, e o beijo tácito, e a sede infinita.
O poema “Amar” integra a segunda parte, “Notícias Amorosas”, do livro Claro enigma, de Carlos Drummond de Andrade. Sobre esse poema, assinale a alternativa correta.
- As indagações repetitivas, nas duas primeiras estrofes, reiteram a inviabilidade do amor diante de um mundo em que tudo é perecível.
- O poeta estabelece uma intensidade da manifestação do amor com relação ao belo diferente da intensidade do amor dispensado ao grotesco.
- Para acentuar a condição inexorável de amar, o poema enumera coisas que, por sua concretude e delicadeza naturais, justificam o amor que já recebem.
- O poema postula uma condição universal, na qual se fundem o sujeito, a ação praticada e os objetos a que essa ação se dirige.
- A última estrofe é a chave explicativa desse soneto e reitera a ineficácia do amor diante de um mundo caótico e insensível.
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Gabarito
D
Comentário do professor
O poema apresenta o amor como uma condição ontológica e universal: a voz poética desloca-se de uma experiência pessoal para uma afirmação geral. A repetição insistente de amar e as perguntas retóricas tornam o verbo uma atitude existencial, não apenas um ato isolado.
Ao enumerar coisas diversas — o mar, a praia, o deserto, um vaso sem flor, a sede — o poema funde sujeito, ação e objetos. A anáfora e a acumulação de imagens desfazem fronteiras entre quem ama, o amar em si e aquilo que é amado, transformando tudo num mesmo movimento contínuo.
Assim, o texto postula uma condição universal de amor: não há separação clara entre o ser, o acto de amar e os alvos desse amor.
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