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Questão FC576779

As lições do analfabetismo Marcos Fabrício Lopes da Silva Sobre o analfabetismo, Étienne Bonnot de Condillac (1714-1780) apresenta argumentação taxativa: “O verdadeiro órfão é aque

Interpretação de Textos (Compreensão)

NC UFPR (FUNPAR) · 2015

As lições do analfabetismo

Marcos Fabrício Lopes da Silva

Sobre o analfabetismo, Étienne Bonnot de Condillac (1714-1780) apresenta argumentação taxativa: “O verdadeiro órfão é aquele que não recebeu educação”. O professor emérito da UnB Isaac Roitman, no artigo “Os órfãos da educação” (Correio Braziliense, 24/08/2015), explica a oração proferida pelo filósofo francês, considerando a realidade brasileira: “O que se espera de  um país que ocupa o oitavo lugar no planeta em número de analfabetos adultos? Temos 14 milhões de adultos que não sabem ler  nem escrever, sem contar os analfabetos funcionais. Eles são cegos sociais porque não conseguem decodificar o código escrito ao seu redor. Entre outras dificuldades, eles não conseguem ler o destino dos ônibus, a bula dos remédios, o cardápio das lanchonete e até mesmo o que está escrito na bandeira brasileira. Eles podem ser considerados como órfãos da educação, pois não tiveram oportunidade de se alfabetizar no sistema educacional ou nunca tiveram oportunidade de frequentar uma escola”.

É necessário, contudo, destacar que os analfabetos historicamente sofrem com a indiferença impetrada pelos alfabetizados,  percebidos como “cidadãos de primeira classe”.

Como consequência desse quadro, Machado de Assis (1839-1908) concluiu argutamente, numa crônica publicada no periódico Ilustração Brasileira, de 15/08/1876, que era falacioso pensar em opinião pública nacional formada pelo saber de todos os  brasileiros. O alto índice de analfabetismo diagnosticado desde o Brasil Império oferecia margem para constatar esse parecer  machadiano. Tais circunstâncias inquietaram o escritor-jornalista, a ponto de ele se certificar de que: “As instituições existem, mas  por e para 30% dos cidadãos. Proponho uma reforma no estilo político. Não se deve dizer: ‘consultar a nação, representantes da nação, os poderes da nação’; mas – ‘consultar os 30%, representantes dos 30%, poderes dos 30%’. A opinião pública é uma metáfora sem base; há só a opinião dos 30%. Um deputado que disser na Câmara: ‘Sr. presidente, falo deste modo porque os 30% nos  ouvem…’ dirá uma coisa extremamente sensata”.

Outro entrave para a erradicação do analfabetismo se refere à timidez de uma comunidade acadêmica que palidamente  reserva suas ações de pesquisa e extensão para promover a formação educacional daqueles que não foram contemplados pelos  ganhos da alfabetização e do letramento. As unidades de ensino e aprendizagem precisam ter como meta principal de suas ações incentivar e compartilhar as benesses da educação para além das prerrogativas formais de instrução. A respeito, o saudoso escritor José Saramago (1922-2010), em Democracia e universidade (2005), esclarece:

“Dir-me-ão: ‘Mas instrução e educação não são o mesmo?’. Não, senhores, não é o mesmo. Instruir é, obviamente, transmitir  conhecimentos acerca das distintas matérias que estão no programa; educar é, segundo o dicionário, dirigir, encaminhar, doutrinar, e os professores, tenho de dizê-lo, ainda que isso possa incomodar alguém, não estão lá para educar mas para instruir, não podem  educar porque não sabem e porque não têm meios para fazê-lo. Para instruir, sim, para isso receberam o encargo da sociedade,  que lhes proporcionou os meios científicos, as ferramentas adequadas e os programas pertinentes, o necessário para transmitir um  nível de conhecimentos que permita aos alunos progredir técnica e cientificamente na sociedade”.

Para que a instrução e a educação se encontrem no denominador comum da escolaridade, não adianta simplesmente enxergar os analfabetos como “cegos sociais” ou “órfãos da educação”. Uma família de analfabetos, com os seus valores, com as suas tradições, sejam camponeses ou da cidade, pode educar, é a educação mais básica que há, a primeira orientação para governar-se na vida com retidão. Num mundo instruído, as pessoas acolhidas verdadeiramente por ele podem encontrar algo diferente, fórmulas para acrescentar à primeira educação recebida. Assim complementarão e ampliarão a base. Ou seja, a educação recebida no seio da família.

(Disponível em: <http://observatorioda

imprensa.com.br/jornal-de-debates/as-licoes-do-analfabetismo/>. Acesso em 29 ago. 2015. Adaptado)

Com base no texto, é correto afirmar:

  1. A França ocupa o oitavo lugar no mundo quando se considera o percentual de analfabetos adultos em relação à população.
  2. As instituições de ensino superior no Brasil desenvolvem um número significativo de projetos de ensino e pesquisa voltados para a formação da população iletrada.
  3. Para uma atuação que tenha como meta reverter o quadro de analfabetismo no país, é fundamental ter consciência de que os analfabetos são cegos sociais.
  4. O descaso das pessoas cultas em relação às iletradas no Brasil é um fenômeno recente, que pode ser observado especialmente entre os políticos.
  5. Segundo o autor, a escola deve não apenas prover a instrução, mas também complementar a educação das crianças, contando  tanto com a participação das famílias.
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Gabarito

Errado

Comentário do professor

O enunciado correto resume a ideia central do texto: a escola não se limita a transmitir conteúdos; ela deve também complementar a formação ética e social que a criança recebe em casa, integrando instrução e educação.

O autor sustenta essa posição apoiando-se na distinção de Saramago entre instruir e educar: a primeira diz respeito a conhecimentos formais; a segunda envolve orientação de vida e valores. Assim, a escola precisa ampliar e aperfeiçoar a base educativa familiar, não substituí‑la.

Ao reforçar a importância da participação da família, o texto afirma que a formação completa resulta da interação entre casa e escola: a família fornece a primeira educação; a escola complementa e sistematiza, possibilitando letramento e inclusão social.

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