Questão FC580743
Leia o texto para responder à questão. Deus, ou alguém por Ele, me poupou de uns tantos pesadelos. É nisso que penso enquanto o camarada à minha frente, com incontida excitação, va
Morfologia
VUNESP · 2023
Leia o texto para responder à questão.
Deus, ou alguém por Ele, me poupou de uns tantos pesadelos. É nisso que penso enquanto o camarada à minha frente, com incontida excitação, vai fazendo o pormenorizado relato de sua batalha para alugar apartamento. Já esteve em duas dúzias de endereços, contabiliza, e em outros tantos pretende estar, pois em cada um achou defeito. Longe de se lamentar, está feliz. À beira da euforia, parece governado pela convicção de que o bom não é achar, é procurar. Prazer que exige dele ver imperfeição onde não tem.
Respeitemos o time dos que procuram na esperança de não encontrar – de certa forma aparentados com aqueles que inventam pretexto para estar o tempo todo reformando a casa. São, uns e outros, meus antípodas1. A simples ideia de empreender uma reforma me levaria a buscar um novo pouso – se também essa perspectiva não me trouxesse pânico. Problema da minha exclusiva terapia, eu sei. E, a esta altura da vida, já não há divã que dê jeito na fobia imobiliária de quem jamais se lançou numa peregrinação em busca de poleiro.
No entanto, ciente das minhas dificuldades nesse particular, houve um dia, meio século atrás, em que, com poucos meses de São Paulo, e pendurado ainda na generosidade do casal que me acolheu de mala e cuia, achei que era hora de providenciar cafofo próprio.
Caiu do céu uma proposta para dividir apartamento com um colega. É bem verdade que o edifício ainda não estava concluído e talvez fôssemos ali, o Sérgio e eu, os únicos moradores, pois não me lembro de vizinhos. Se mais gente veio, foi para o mesmo apartamento, de apenas um quarto e sala microscópica, mas onde, em dado momento, se espremeram quatro rapazes, todos do ramo jornalístico. E nem a nossa juventude explicaria a indiferença coletiva ante o fato de não haver ali uma geladeira, por miúda que fosse, para tantos bebedores de cerveja. Fogão havia, mas ocioso, pois nenhum de nós fritava um ovo.
Teria ficado indefinidamente em tal moquiço2, se um dos comparsas, exasperado, não me houvesse proposto alugar coisa menos deprimente. Houve mais dois apartamentos, ambos excelentes, que também não foi preciso garimpar. O mesmo se diga de um terceiro, o atual, no qual estou faz quase 28 anos e do qual não pretendo arredar pé – a não ser que o referido pé já não dê conta dos 24 degraus que me trazem a este primeiro andar.
(Humberto Werneck. Fobia imobiliária. www.estadao.com.br, 02.10.2020. Adaptado)
1 antípoda: aquele tem característica oposta.
2 moquiço: habitação rústica, desprovida de conforto.
No trecho “Problema da minha exclusiva terapia, eu sei. E, a esta altura da vida, já não há divã que dê jeito na fobia imobiliária…”, o vocábulo E, em destaque, pode ser substituído, sem prejuízo do sentido e da correção gramatical, por:
- Como
- Embora
- Mas
- Pois
- Porque
Mostrar resposta e comentário
Gabarito
Certo
Comentário do professor
Mas é a escolha correta porque exerce valor adversativo, ou seja, estabelece contraste entre as ideias. A primeira oração (Problema da minha exclusiva terapia, eu sei.) afirma reconhecimento; a segunda (a esta altura da vida, já não há divã que dê jeito na fobia imobiliária…) apresenta restrição ou oposição a essa declaração.
Ao substituir o "e" por mas, o sentido e a correção gramatical se mantêm: a construção continua coerente e o verbo no modo indicativo ("há") permanece adequado. A expressão adverbial a esta altura da vida é apenas um elemento parentético e não impede a função adversativa da conjunção.
Conteúdo do catálogo FC Concursos · Atualizado em