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Questão FC610760

O Brasil virou um país de influenciadores Tenho vivido entre duas cidades. Quando cheguei à segunda, precisei pegar todos aqueles contatos que tornam a vida de um ser humano possív

Interpretação de Textos (Compreensão)

Legatus · 2025

O Brasil virou um país de influenciadores 

   

Tenho vivido entre duas cidades. Quando cheguei à segunda, precisei pegar todos aqueles contatos que tornam a vida de um ser humano possível. Eu já me sentia em casa, mas minha pele não, tomada por uma alergia incômoda.

   

Entrei no grupo de WhatsApp dos meus amigos locais e pedi indicação de dermatologista. Me surpreendi ao receber, no lugar de um contato com número de telefone, um link para o Instagram. Cliquei. Quase saí, achando ter caído na página errada. Nas fotos, uma mulher sorria no sofá com as pernas cruzadas. Segurava o maxilar insinuando os lábios carnudos. Olhava melancólica por uma janela. Logo entendi que mirava aquelas persianas para mostrar sua papada atlética e ofertar botox. Da mesma forma que as outras fotos vendiam outros tratamentos. 

   

Primeiro toquei a minha papada: será que aquilo era uma indireta? Sentindo que minha pele ainda segue aderida ao meu gogó, concluí que não, meu amigo tinha apenas passado a indicação de uma dermatologista com um leque vasto de serviços, que ela explicava em dezenas de vídeos e lives com convidados, em ritmo de talk show. 

   

Por um segundo, me encantei com a sua desenvoltura, mas então me ocorreu: com essa rotina de show woman, será que consegue frequentar congressos? Fazer especializações? Tratar com cuidado uma insignificante alergia? Minha pele não queria a Marília Gabriela nem a Oprah Winfrey.

   

Quando pedi aos meus amigos indicação de arquiteta, o alívio: não me mandaram perfil de redes sociais, apenas nome e telefone. Convidei-a para visitar o meu apartamento, era naquela sala que ela precisaria dar um tapa. A arquiteta entrou e já começou a fazer diversas fotos e vídeos. Tá registrando pra usar no projeto?, perguntei. Pra isso e pra fazer um Antes & Depois, que postaremos quando a reforma estiver pronta, disse. E isso antes de ser contratada. Ou melhor, dispensada.

   

O problema é essa demanda repentina e opressora para todo profissional ser produtor de conteúdo, angariar milhares de seguidores, conquistar uma média de sei lá quantos views. De onde sai o tempo extra para fazer isso? Uns vão sacrificar as horas que dedicariam ao ofício. Outros vão pagar alguém para produzir o conteúdo. Outros, provavelmente a maioria, vão encarar uma jornada dupla. 

   

Será que o esforço vale a pena? Será que esse tempo sempre se reverte em clientes, pacientes, leitores? Ou o maior interessado nessa exposição ainda é o ego? Cada caso é um caso não existe uma resposta absoluta. Só sei que: 1. O capitalismo é mesmo um bicho danado, sempre aparecendo com um jeito novo de tirar o nosso sangue sem a gente perceber. 2. Minha pele não virou stories e passa bem. 

   

Por Giovana Madaloso. Texto coletado de https://www1.folha.uol.com.br/colunas/giovana-maladosso/2024/09/o-brasil-virou-um-pais-de-influenciadores.shtml, acesso em 15 de setembro de 2024.

 

O texto é um exemplar do gênero crônica argumentativa, cujo propósito comunicativo, nesse contexto, é

  1. ridicularizar a profissão de influenciadores que estão sempre vendendo falsos serviços.
  2. criticar a tendência de muitos profissionais a se transformarem em influencers para vender os seus produtos.
  3. argumentar que, contemporaneamente, muitas pessoas adotam o padrão de influenciador para estarem sempre na mídia.
  4. apresentar a visão de que profissionais renomados exploram a internet com vídeos de oferta de seus trabalhos.
  5. expor o seu ponto de vista acerca do excesso de pessoas e profissionais, em geral, que estão nas redes sociais para ampliar o seu trabalho.
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Gabarito

B

Comentário do professor

Criticar a tendência de profissionais virarem influencers para vender serviços é o propósito comunicativo da crônica. O narrador relata episódios concretos — a dermatologista em formato de "show woman" no Instagram e a arquiteta que registra a visita para um "Antes & Depois" — para mostrar como a autopromoção invasiva invade a rotina profissional.

Estratégias textuais sustentam essa crítica: narrativa em primeira pessoa que apresenta exemplos cotidianos, tom irônico ao observar a perda de foco no ofício, perguntas retóricas que problematizam o sacrifício do trabalho técnico e uma conclusão que associa a prática a uma lógica capitalista exploradora. Assim, a crônica não celebra a exposição, mas a questiona e condena suas consequências.

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