Questão FC610768
Em tempos de carros voadores (ao menos, foi o que imaginamos lá atrás para os dias de hoje), idolatramos atitudes que deveriam ser normais e criamos ídolos que não existem para esq
Interpretação de Textos (Compreensão)
Legalle · 2025
Para responder a questão seguinte, leia o texto abaixo.
Modo avião
A brevidade de todas as coisas me assusta. Há anos falamos sobre a obsolescência programada de produtos que são feitos com prazo de validade, incitando uma recompra, e ultimamente temos insistido veementemente na ideia de que ninguém tem paciência pra nada. Entretanto, mais urgente ainda, parece ser a questão de que hoje tudo é raso e tem uma vida útil tão rápida que mal pode ser chamada de vida. Estamos vivendo em tempos de império absoluto do efêmero.
Não faz muito que o conceito de "cancelamento" encontrou o dicionário popular. Fulano comete um erro, beltrano expõe (quase sempre na internet), e uma multidão de sicranoas massacram fulano até que haja uma nova pessoa para ser perseguida. Porém, este é um ciclo breve, assim como grande parte do que se experiencia atualmente. Ninguém lembra de quem foi cancelado semana passada porque todo mundo está preocupado em cancelar o assunto do momento. Da mesma forma, ninguém lembra da subcelebridade que entrou para o hall da fama semana retrasada por algo tão trivial que somente o brasileiro é capaz de dar protagonismo. De tempos em tempos, alimentamos fofocas a ponto de inventar pessoas que não fizeram muito para estar onde estão – algo que tenho chamado de Celeiro dos Alucinados.
A história da passageira que se recusou a oferecer o assento na janela para uma criança e que foi gravada e exposta na internet é um bom exemplo. Prestes a atingir 3 milhões de seguidores nas redes – a metade do que tem Fernanda Montenegro, por exemplo –, a anônima que virou famosa de supetão colhe os frutos de uma sociedade que inventa heróis para viverem o que não se tem coragem de viver. “Minha meta é ter a calma dessa mulher”, foi um dos comentários mais curtidos no vídeo que viralizou recentemente. Ou seja, ninguém quer procurar as próprias formas de trabalhar a calma. É mais fácil encontrá-la nos outros porque a idealização é um atalho formidável.
A comparação de seguidores de uma subcelebridade cuja fama é passageira com uma atriz com 80 anos de carreira como Fernanda Montenegro não é em vão. Até porque, a diferença é justamente essa: 80 anos de construção de história que serão lembrados por muito tempo. Para Fernanda, prazo de validade não existe – mesmo após a morte, ficará o legado. E o que vemos, então, é um amontoado de pessoas que ganham visibilidade por dancinhas replicadas em massa, rotinas compartilhadas sem o mínimo de fundamento, vivências sendo vendidas como “criação de conteúdo” sendo que o conteúdo é inexistente. Vivemos um eco que perturba justamente porque reverbera o vazio da maior parte de tudo aquilo que consumimos.
Em tempos de carros voadores (ao menos, foi o que imaginamos lá atrás para os dias de hoje), idolatramos atitudes que deveriam ser normais e criamos ídolos que não existem para esquecermos deles logo depois. Abraçamos o instantâneo porque, afinal, quem tem paciência (ou enxerga vantagens e lucro) em criar um legado que é construído lentamente, mas que é sempre contínuo?
Estamos tão imersos no modo avião, desconectados das coisas relevantes e mirando holofotes em referências que passam longe de uma solidez, que a cultura do instantâneo parece ser um acalento, quando na verdade é uma armadilha. Basta ver: viralizar por conseguir dizer “não” é simbólico e sintomático, um resumo impecável das faltas que existem dentro da gente.
Autor: Pedro Guerra (GZH).
No texto, o autor afirma que estamos vivendo em tempos de império absoluto do efêmero. A expressão “império absoluto” é usada para indicar:
- A resistência da sociedade atual em aceitar a cultura efêmera, preferindo sempre o tempo longo e profundo.
- A valorização do que é eterno e significativo, com a busca por legados construídos de forma duradoura.
- O resgate da paciência e da valorização de construções profundas e significativas na sociedade atual.
- O domínio completo do efêmero, caracterizado pelo rápido e momentâneo, sobre a realidade.
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Gabarito
D
Comentário do professor
A expressão "império absoluto do efêmero" é usada pelo autor para transmitir a ideia de domínio completo do transitório sobre a vida social. Ou seja, o passageiro, o rápido e o superficial passam a orientar comportamentos, valores e atenções.
O texto exemplifica esse controle com fenômenos como a viralização instantânea, o cancelamento efêmero e a substituição da construção longa de reputação por sucessos momentâneos. Assim, o autor denuncia uma realidade em que o breve não apenas existe, mas predomina.
Portanto, o sentido de "império absoluto" é literal: a cultura do efêmero exerce influência total sobre a realidade, relegando ao segundo plano o duradouro e o consistente.
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