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Questão FC610770

Em tempos de carros voadores (ao menos, foi o que imaginamos lá atrás para os dias de hoje), idolatramos atitudes que deveriam ser normais e criamos ídolos que não existem para esq

Interpretação de Textos (Compreensão)

Legalle · 2025

Para responder a questão seguinte, leia o texto abaixo.

Modo avião

 

A brevidade de todas as coisas me assusta. Há anos falamos sobre a obsolescência programada de produtos que são feitos com prazo de validade, incitando uma recompra, e ultimamente temos insistido veementemente na ideia de que ninguém tem paciência pra nada. Entretanto, mais urgente ainda, parece ser a questão de que hoje tudo é raso e tem uma vida útil tão rápida que mal pode ser chamada de vida. Estamos vivendo em tempos de império absoluto do efêmero.

 

Não faz muito que o conceito de "cancelamento" encontrou o dicionário popular. Fulano comete um erro, beltrano expõe (quase sempre na internet), e uma multidão de sicranoas massacram fulano até que haja uma nova pessoa para ser perseguida. Porém, este é um ciclo breve, assim como grande parte do que se experiencia atualmente. Ninguém lembra de quem foi cancelado semana passada porque todo mundo está preocupado em cancelar o assunto do momento. Da mesma forma, ninguém lembra da subcelebridade que entrou para o hall da fama semana retrasada por algo tão trivial que somente o brasileiro é capaz de dar protagonismo. De tempos em tempos, alimentamos fofocas a ponto de inventar pessoas que não fizeram muito para estar onde estão – algo que tenho chamado de Celeiro dos Alucinados.

 

A história da passageira que se recusou a oferecer o assento na janela para uma criança e que foi gravada e exposta na internet é um bom exemplo. Prestes a atingir 3 milhões de seguidores nas redes – a metade do que tem Fernanda Montenegro, por exemplo –, a anônima que virou famosa de supetão colhe os frutos de uma sociedade que inventa heróis para viverem o que não se tem coragem de viver. “Minha meta é ter a calma dessa mulher”, foi um dos comentários mais curtidos no vídeo que viralizou recentemente. Ou seja, ninguém quer procurar as próprias formas de trabalhar a calma. É mais fácil encontrá-la nos outros porque a idealização é um atalho formidável.

 

A comparação de seguidores de uma subcelebridade cuja fama é passageira com uma atriz com 80 anos de carreira como Fernanda Montenegro não é em vão. Até porque, a diferença é justamente essa: 80 anos de construção de história que serão lembrados por muito tempo. Para Fernanda, prazo de validade não existe – mesmo após a morte, ficará o legado. E o que vemos, então, é um amontoado de pessoas que ganham visibilidade por dancinhas replicadas em massa, rotinas compartilhadas sem o mínimo de fundamento, vivências sendo vendidas como “criação de conteúdo” sendo que o conteúdo é inexistente. Vivemos um eco que perturba justamente porque reverbera o vazio da maior parte de tudo aquilo que consumimos.

 

Em tempos de carros voadores (ao menos, foi o que imaginamos lá atrás para os dias de hoje), idolatramos atitudes que deveriam ser normais e criamos ídolos que não existem para esquecermos deles logo depois. Abraçamos o instantâneo porque, afinal, quem tem paciência (ou enxerga vantagens e lucro) em criar um legado que é construído lentamente, mas que é sempre contínuo?

 

Estamos tão imersos no modo avião, desconectados das coisas relevantes e mirando holofotes em referências que passam longe de uma solidez, que a cultura do instantâneo parece ser um acalento, quando na verdade é uma armadilha. Basta ver: viralizar por conseguir dizer “não” é simbólico e sintomático, um resumo impecável das faltas que existem dentro da gente.

 

Autor: Pedro Guerra (GZH).

 

Acerca do contraste entre figuras públicas no texto, analise as assertivas abaixo:

 

I. O autor compara a fama efêmera das subcelebridades com a carreira sólida de Fernanda Montenegro, enfatizando que o legado de pessoas com uma longa trajetória será lembrado por menos tempo.

 

II. O texto sugere que a sociedade atual é capaz de criar conteúdos profundos e relevantes, mas opta por consumir o que é superficial e passageiro.

 

III. A crítica do autor é direcionada ao fato de que vivemos em tempos em que o efêmero domina, com produtos, figuras públicas e comportamentos que têm uma vida útil extremamente curta.

 

Está(ão) CORRETA(S):

  1. Apenas as assertivas I e III.
  2. Apenas as assertivas II e III.
  3. Apenas a assertiva III.
  4. As assertivas I, II e III.
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Gabarito

Certo

Comentário do professor

III está correta porque o texto centra-se na crítica à predominância do efêmero na sociedade contemporânea.

O autor afirma que vivemos no “império absoluto do efêmero” e exemplifica como produtos, comportamentos e figuras públicas têm vida útil muito curta, ilustrando com o fenômeno do cancelamento, a subida-relâmpago de subcelebridades e a viralização de episódios pontuais.

Ao destacar a comparacão entre a fama passageira e a carreira longa de Fernanda Montenegro, o texto reforça a ideia de que o que domina é o imediato e não o que perdura.

Portanto, a assertiva sintetiza com fidelidade a crítica do autor: o efêmero domina diferentes esferas da vida social, tornando tudo superficial e transitório.

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