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Questão FC610772

O que o autor deseja transmitir com a frase: “Vivemos um eco que perturba justamente porque reverbera o vazio da maior parte de tudo aquilo que consumimos” (em vermelho)?

Interpretação de Textos (Compreensão)

Legalle · 2025

Para responder a questão seguinte, leia o texto abaixo.

Modo avião

 

A brevidade de todas as coisas me assusta. Há anos falamos sobre a obsolescência programada de produtos que são feitos com prazo de validade, incitando uma recompra, e ultimamente temos insistido veementemente na ideia de que ninguém tem paciência pra nada. Entretanto, mais urgente ainda, parece ser a questão de que hoje tudo é raso e tem uma vida útil tão rápida que mal pode ser chamada de vida. Estamos vivendo em tempos de império absoluto do efêmero.

 

Não faz muito que o conceito de "cancelamento" encontrou o dicionário popular. Fulano comete um erro, beltrano expõe (quase sempre na internet), e uma multidão de sicranoas massacram fulano até que haja uma nova pessoa para ser perseguida. Porém, este é um ciclo breve, assim como grande parte do que se experiencia atualmente. Ninguém lembra de quem foi cancelado semana passada porque todo mundo está preocupado em cancelar o assunto do momento. Da mesma forma, ninguém lembra da subcelebridade que entrou para o hall da fama semana retrasada por algo tão trivial que somente o brasileiro é capaz de dar protagonismo. De tempos em tempos, alimentamos fofocas a ponto de inventar pessoas que não fizeram muito para estar onde estão – algo que tenho chamado de Celeiro dos Alucinados.

 

A história da passageira que se recusou a oferecer o assento na janela para uma criança e que foi gravada e exposta na internet é um bom exemplo. Prestes a atingir 3 milhões de seguidores nas redes – a metade do que tem Fernanda Montenegro, por exemplo –, a anônima que virou famosa de supetão colhe os frutos de uma sociedade que inventa heróis para viverem o que não se tem coragem de viver. “Minha meta é ter a calma dessa mulher”, foi um dos comentários mais curtidos no vídeo que viralizou recentemente. Ou seja, ninguém quer procurar as próprias formas de trabalhar a calma. É mais fácil encontrá-la nos outros porque a idealização é um atalho formidável.

 

A comparação de seguidores de uma subcelebridade cuja fama é passageira com uma atriz com 80 anos de carreira como Fernanda Montenegro não é em vão. Até porque, a diferença é justamente essa: 80 anos de construção de história que serão lembrados por muito tempo. Para Fernanda, prazo de validade não existe – mesmo após a morte, ficará o legado. E o que vemos, então, é um amontoado de pessoas que ganham visibilidade por dancinhas replicadas em massa, rotinas compartilhadas sem o mínimo de fundamento, vivências sendo vendidas como “criação de conteúdo” sendo que o conteúdo é inexistente. Vivemos um eco que perturba justamente porque reverbera o vazio da maior parte de tudo aquilo que consumimos.

 

Em tempos de carros voadores (ao menos, foi o que imaginamos lá atrás para os dias de hoje), idolatramos atitudes que deveriam ser normais e criamos ídolos que não existem para esquecermos deles logo depois. Abraçamos o instantâneo porque, afinal, quem tem paciência (ou enxerga vantagens e lucro) em criar um legado que é construído lentamente, mas que é sempre contínuo?

 

Estamos tão imersos no modo avião, desconectados das coisas relevantes e mirando holofotes em referências que passam longe de uma solidez, que a cultura do instantâneo parece ser um acalento, quando na verdade é uma armadilha. Basta ver: viralizar por conseguir dizer “não” é simbólico e sintomático, um resumo impecável das faltas que existem dentro da gente.

 

Autor: Pedro Guerra (GZH).

 

O que o autor deseja transmitir com a frase: “Vivemos um eco que perturba justamente porque reverbera o vazio da maior parte de tudo aquilo que consumimos” (em vermelho)?

  1. O autor afirma que o consumo excessivo de informações profundas é o principal problema da atualidade.
  2. A frase expressa otimismo sobre o consumo consciente e a valorização de conteúdos de qualidade.
  3. A frase reflete a crítica à sociedade contemporânea, que consome e reproduz conteúdos desprovidos de significado ou relevância.
  4. O autor sugere que o eco representa a propagação de ideias profundas que são, em geral, valorizadas pela sociedade.
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Gabarito

Certo

Comentário do professor

Correto. A frase “Vivemos um eco que perturba justamente porque reverbera o vazio da maior parte de tudo aquilo que consumimos” usa a imagem do eco para mostrar que o que se propaga na sociedade atual é uma repetição incessante de conteúdos sem profundidade.

Ao dizer que esse eco perturba, o autor indica incômodo com a circulação massiva de informações efêmeras que não acrescentam sentido. O termo vazio marca a falta de substância desses conteúdos.

Portanto, a frase sintetiza a crítica à contemporaneidade: consumimos e reproduzimos material desprovido de relevância, celebrando o instantâneo em detrimento de obras ou atitudes duradouras e significativas.

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