Questão FC610781
A questão se refere ao texto a seguir. África Carlos Starling A África sou eu, você e todos nós! Saímos daqui e ganhamos o mundo. Fomos buscar o futuro como exploradores de planeta
Tipologia e Gênero Textual
IMAM · 2025
A questão se refere ao texto a seguir.
África
Carlos Starling
A África sou eu, você e todos nós! Saímos daqui e ganhamos o mundo. Fomos buscar o futuro como exploradores de planetas impossíveis. Viramos europeus, asiáticos e americanos de toda cor e costumes. Nos diferenciamos de nós mesmos.
Quase não nos reconhecemos quando olhamos no espelho. Somos os mesmos. Basta olhar. Basta ver a aridez do solo. A flor que nasce esplendorosa do cacto. A árvore seca que contrasta com o céu infinitamente azul. A voracidade do leão que devora sua presa. Somos nós! África pura.
E o mundo se esqueceu de que nasceu na África. Berço de todos nós. Terra mãe que alimentou nossos primeiros passos e viu seus descendentes voltarem com navios, canhões e laços, não para abraçar, mas para arrancar suas entranhas.
Arrancaram o marfim dos elefantes. Arrancaram os diamantes das montanhas, o ouro das profundezas, o petróleo das veias da terra. Mas, pior, arrancaram homens e mulheres de suas raízes, transformando-os em mercadoria, em números, em dor, injustiça e sofrimento.
O baobá milenar testemunhou tudo. Suas raízes profundas guardam memórias que os livros de história preferem esquecer. O tambor ainda ecoa nas savanas, contando histórias que bibliotecas coloniais não preservaram. A África não é um continente de silêncio, sem memórias, mas de vozes que foram sistematicamente abafadas.
Não existe um mundo de primeira e um outro de terceira categoria. Existe um único mundo, interconectado, interdependente. A dor da África é a dor do planeta. A ferida aberta no coração do continente sangra em todos os oceanos. Quando uma criança morre de fome em Mali, uma estrela se apaga no céu de Nova York, mesmo que ninguém perceba.
A verdadeira pandemia é a indiferença. É o olhar que se desvia. É a consciência anestesiada. Mas a África resiste e nos ensina a resistir. Como o baobá que sobrevive às secas mais severas. Como o rinoceronte que, mesmo caçado até quase a extinção, ainda corre pelas planícies, contente com a liberdade.
Somos todos África, porque compartilhamos um destino comum. Quando o último rio africano for contaminado, os rios do mundo todo sentirão. Quando o último pedaço de terra fértil for transformado em deserto, a fome visitará todas as mesas. Um mundo único exige uma nova consciência. Exige entender que as doenças não são apenas falhas biológicas, mas manifestações de falhas morais e políticas muito mais profundas.
Quando aprendermos a ver a África não como um "outro" distante, mas como parte integrante de nossos próprios genes, talvez então possamos começar a curar as feridas de séculos. Quando entendermos que a pobreza não é natural, mas fabricada, talvez então possamos desmantelar as máquinas que a produzem.
África, continente do sol que nunca se põe, do tempo que se mede em gerações; não em horas. África de Mandela e Lumumba, de rainhas guerreiras, de nossos novos amigos Collins e Thomas, que nos guiaram savana adentro nos mostrando os rastros da África no mundo. África que ainda espera o dia em que será vista não como um problema a ser resolvido, mas como uma promessa a ser cumprida.
Quando a África finalmente respirar livre, o mundo inteiro poderá colocar a cabeça no travesseiro e dormir em paz.
Estado de Minas, Bem Viver, 08 jul. 2025, p. 26. Adaptado.
A ode é um gênero textual, uma composição poética ou discursiva de tom elevado, enfático e geralmente celebrativo, voltada para exaltar ou homenagear um tema, uma ideia, uma pessoa, uma cultura ou um lugar.
Segundo esse preceito, o texto de Carlos Starling pode ser visto como uma ode moderna em prosa, que une estética e ética em torno da valorização da África, exceto porque
- ( ) envolve um chamado à empatia e à mudança de consciência, uma convocação moral, uma dimensão quase profética, de forma engajada: "Um mundo único exige uma nova consciência".
- ( ) exalta a África como berço da humanidade e como um símbolo de resistência, diversidade e esperança: "A África sou eu, você e todos nós!" [...] "África, continente do sol que nunca se põe..."
- ( ) não apenas celebra, mas provoca reflexão - neste caso, sobre questões sociais, políticas e históricas ligadas à África e à humanidade: "...as doenças não são apenas falhas biológicas, mas manifestações de falhas morais e políticas muito mais profundas".
- ( ) dispensa o tom laudatório, prioriza uma abordagem analítica e informativa, pautada por uma perspectiva descritiva, e recorre a estruturas argumentativas objetivas em detrimento de construções simbólicas: "Quando a África finalmente respirar livre, o mundo inteiro poderá colocar a cabeça no travesseiro e dormir em paz".
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Gabarito
D
Comentário do professor
A opção D é o gabarito porque apresenta uma descrição que não se aplica ao texto. Em vez de uma abordagem analítica e informativa, o texto adota o caráter próprio da ode: tom exaltado, linguagem valorativa e forte carga emotiva.
O trecho citado "Quando a África finalmente respirar livre, o mundo inteiro poderá colocar a cabeça no travesseiro e dormir em paz" funciona como metáfora e apelo moral, não como afirmação objetiva. Essa frase traduz convicção, sonho e convocação ética, características típicas de um discurso celebrativo e engajado.
Portanto, a alternativa D é a resposta exigida pelo enunciado de exceção, pois descreve o texto como se fosse neutro e desapaixonado, quando na realidade predomina o uso de imagens, símbolos e tom laudatório.
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