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Questão FC610851

– O quê?

Ortografia

AVANÇASP · 2025

Dois mais dois

 

O Rodrigo não entendia por que precisava aprender matemática, já que a sua minicalculadora faria todas as contas por ele, pelo resto da vida, e então a professora resolveu contar uma história.

 

Contou a história do Supercomputador. Um dia, disse a professora, todos os computadores do mundo serão unificados num único sistema, e o centro do sistema será em alguma cidade do Japão. Todas as casas do mundo, todos os lugares do mundo terão terminais do Supercomputador. As pessoas usarão o Supercomputador para compras, para recados, para reservas de avião, para consultas sentimentais. Para tudo. (...)

 

Um dia, um garoto perguntará ao pai:

 

– Pai, quanto é dois mais dois?

 

– Não pergunte a mim – dirá o pai –, pergunte a Ele.

 

E o garoto digitará os botões apropriados e num milésimo de segundo a resposta aparecerá na tela. E então o garoto dirá:

 

– Como é que sei que a resposta é certa?

 

– Porque Ele disse que é certa – responderá o pai.

 

– E se Ele estiver errado?

 

– Ele nunca erra.

 

– Mas se estiver?

 

– Sempre podemos contar nos dedos.

 

– O quê?

 

– Contar nos dedos, como faziam os antigos. Levante dois dedos. Agora mais dois. Viu? Um, dois, três, quatro. O Computador está certo.

 

– Mas, pai, e 362 vezes 17? Não dá para contar nos dedos. A não ser reunindo muita gente e usando os dedos das mãos e dos pés. Como saber se a resposta d’Ele está certa? Aí o pai suspirou e disse:

 

– Jamais saberemos...

 

O Rodrigo gostou da história, mas disse que, quando ninguém mais soubesse matemática e não pudesse pôr o Computador à prova, então não faria diferença se o Computador estava certo ou não, já que a sua resposta seria a única disponível e, portanto, a certa, mesmo que estivesse errada, e... Aí foi a vez da professora suspirar.

 

VERÍSSIMO, Luis Fernando. Dois mais dois. Disponível em <https://www.culturagenial.com/cronicas-engracadas-de-luis-fernando-verissimo-comentadas/>.

 

No texto “Dois mais dois”, o uso de “Ele”, “Supercomputador” e “Computador”, com inicial maiúscula, expressa:

  1. o menosprezo pela máquina.
  2. o poder e a supremacia da máquina.
  3. o disfarce da máquina em pessoa.
  4. o disfarce da pessoa em máquina.
  5. erro de grafia.
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Gabarito

B

Comentário do professor

A opção correta indica que a grafia com inicial maiúscula transforma o aparelho em figura de poder e supremacia. Ao tratar "Ele", "Supercomputador" e "Computador" como nomes próprios, o texto os eleva a status de autoridade sustentável.

O uso de "Ele" com maiúscula funciona como antropomorfismo e sacralização: sugere uma entidade infalível, superior às pessoas, digna de confiança absoluta. Essa escolha reduz o equipamento a uma instância quase religiosa de saber.

Nomear com maiúscula também sinaliza centralização e domínio tecnológico. A narrativa mostra dependência total da máquina para decisões cotidianas, reforçando a ideia de que ela ocupa posição de comando social.

Assim, a capitalização cumpre papel semântico e estilístico: enfatizar a autoridade e a hegemonia da máquina sobre o humano. É um recurso que denuncia a perda de autonomia intelectual.

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