Questão FC61240
O exercício da crônica Escrever prosa é uma arte ingrata. Eu digo prosa fiada, como faz um cronista; não a prosa de um ficcionista, na qual este é levado meio a tapas pelas persona
Regência
O exercício da crônica
Alguns fazem-no de maneira simples e direta, sem caprichar demais no estilo, mas enfeitando-o aqui e ali desses pequenos achados que são a sua marca registrada e constituem um tópico infalível nas conversas do alheio naquela noite. Outros, de modo lento e elaborado, que o leitor deixa para mais tarde como num convite ao sono: a estes se lê como quem mastiga com prazer grandes bolas de chicletes. Outros ainda, e constituem a maioria, “tacam peito” na máquina e cumprem o dever cotidiano da crônica com uma espécie de desespero, numa atitude ou-vai-ou-racha. Há os eufóricos, cuja prosa procura sempre infundir vida e alegria em seus leitores e há os tristes, que escrevem com o fito exclusivo de desanimar o gentio não só quanto à vida, como quanto à condição humana e às razões de viver. Há também os modestos, que ocultam cuidadosamente a própria personalidade atrás do que dizem e, em contrapartida, os vaidosos, que castigam no pronome na primeira pessoa e colocam-se geralmente como a personagem principal de todas as situações. Como se diz que é preciso um pouco de tudo para fazer um mundo, todos estes “marginais da imprensa”, por assim dizer, têm o seu papel a cumprir. Uns afagam vaidades, outros as espicaçam; este é lido por puro deleite, aquele por puro vício. Mas uma coisa é certa: o público não dispensa a crônica, e o cronista afirma-se cada vez mais como o cafezinho quente seguido de um bom cigarro, que tanto prazer dão depois que se come.
Coloque-se porém o leitor, o ingrato leitor, no papel do cronista. Dias há em que, positivamente, a crônica “não baixa”. O cronista levanta-se, senta-se, lava as mãos, levanta-se de novo, chega à janela, dá uma telefonada a um amigo, põe um disco na vitrola, relê crônicas passadas em busca de inspiração - e nada. Ele sabe que o tempo está correndo, que a sua página tem uma hora certa para fechar, que os linotipistas o estão esperando com impaciência, que o diretor do jornal está provavelmente coçando a cabeça e dizendo a seus auxiliares: - “É... Não há nada a fazer com Fulano...” Aí então é que, se ele é cronista mesmo, ele se pega pela gola e diz: - “Vamos, escreve, ó mascarado! Escreve uma crônica sobre esta cadeira que está aí em tua frente! E que ela seja bem feita e divirta os leitores!” E o negócio sai de qualquer maneira.
O ideal para um cronista é ter sempre uma ou duas crônicas adiantadas. Mas eu conheço muito poucos que o façam. Alguns tentam, quando começam, no afã de dar uma boa impressão ao diretor e ao secretário do jornal. Mas se ele é um verdadeiro cronista, um cronista que se preza, ao fim de duas semanas estará gastando a metade do seu ordenado em mandar sua crônica de táxi - e a verdade é que, em sua inocente maldade, tem um certo prazer em imaginar o suspiro de alívio e a correria que ela causa quando, tal uma filha desaparecida, chega de volta à casa paterna.
(Vinícius de Moraes. Para viver um grande amor. 1962.)
Assinale a alternativa em que há ERRO no uso do acento indicativo de crase.
- O leitor dedicava-se à leitura de crônicas.
- O cronista dava preferência às crônicas de estilo mais elaborado.
- O cronista produzia seus textos à tardinha.
- O cronista deve estar atento às situações do cotidiano.
- O texto da crônica lembrava-lhe à sua infância.
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Gabarito
Errado
Comentário do professor
A frase apresenta erro no uso da crase porque ali não há junção de preposição + artigo. O verbo lembrar na construção usada traz o pronome lhe (objeto indireto) e, simultaneamente, o substantivo a sua infância como objeto direto, este último apenas acompanhado do artigo feminino a, sem preposição exigida.
Um teste prático: substitua lhe por a ele, obtendo O texto lembrava a ele a sua infância, que evidencia que o segundo a é artigo, não preposição. Assim, não se emprega acento grave.
A forma correta é: O texto da crônica lembrava-lhe a sua infância.
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