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Questão FC669825

Texto para o item. É provável que a Medicina tenha surgido com a humanidade. Vítima e testemunha do sofrimento, o ser humano deve, desde logo, ter‑se debruçado sobre os doentes, co

Regência

QUADRIX · 2025

Texto para o item.

É provável que a Medicina tenha surgido com a humanidade. Vítima e testemunha do sofrimento, o ser humano deve, desde logo, ter‑se debruçado sobre os doentes, com o desejo de curá‑los. É possível que encarasse a doença como ocorrência sobrenatural, tal como os ventos, as tempestades ou as manifestações de deuses malévolos. A doença, com suas dolorosas consequências, seria obra de algum espírito, cuja ira importaria aplacar com os sacrifícios, ou seria obra de alguminimigo, dotado de poderes especiais, cuja animosidade haveria de ser combatida por meio de sortilégios.

Nesse quadro geral, a doença foi diversamente contemplada, ora como fruto de invasão do organismo por matéria estranha, ora como “perda da alma”, ora em termos de corpo possuído por fantasmas, ora como decorrência do rompimento de tabus, entre outras formas.

Povos primitivos entendiam a doença como algo que se devia à ação de projéteis: lanças, flechas, pedras atiradas por inimigos ou, talvez, ossos e espinhos que alguém engolia sem querer, em virtude da ação de forças adversas, humanas ou sobre‑humanas. Em alguns casos, o projétil é um organismo (um verme, por exemplo), cujos movimentos, na pessoa afetada, explicariam dores agudas ou o mal‑estar súbito. A terapia, nessas várias situações, resumir‑se‑ia à localização e à remoção do invasor, sem excluir, muitas vezes, a possibilidade de devolvê‑lo ao remetente.

A alma, para povos primitivos, não seria entendida em fundamentos teológicos ou metafísicos, mas como sombra ou duplo da pessoa. Esse duplo teria condições, às vezes, de separar‑se do corpo, graças à ação mágica dos deuses ou de eventuais inimigos humanos. A terapia aconselhável consistia em reencontrar a alma para devolvê‑la ao proprietário. No caso de invasão por demônio, a pessoa adoecia porque era possuída por espíritos ou almas estranhas, cuja terapia consistia em tratamentos psicológicos (exorcismo), em extrações mecânicas (alcançada por ingestão de substâncias ou por aspiração de vapores presumivelmente não apreciados pelo invasor) ou em transferências (procurando‑se enviar a alma estranha para outro corpo – animal ou objeto capaz de retê‑la).

Quando se alude à quebra de tabus, entendia‑se a doença como punição: o doente era castigado por haver‑se rebelado contra imperativos religiosos ou sociais. Deuses e almas de antepassados puniam os homens que não se curvavam diante dos mandamentos vigentes.

Em certas circunstâncias, era preciso distinguir a culpa individual da coletiva: males que afligiam a tribo eram associados a uma culpa coletiva, um erro ou uma desobediência generalizada, que dava origem aos males e às epidemias. Em qualquer caso, a terapia envolvia interrogatório e confissão de culpa. Confessada a culpa, as pessoas castigadas, prometendo fidelidade aos mandamentos em vigor, adquiriam condições de curar‑se.

HEGENBERG, Leonidas. Evolução histórica do conceito

de doença. In: L. Hegenberg (org.). Doença: um estudo filosófico. Rio de Janeiro: Fiocruz, 1998 (com adaptações).

 

Com referência ao texto e a seus aspectos linguísticos e gramaticais, julgue o item seguinte.

o emprego de acento gráfico no termo “à”, em “se devia à ação de projéteis”, decorre da regência da forma verbal “dever‑se”, que é acompanhada do vocábulo “a”, em presença de artigo feminino “a” que define “ação de projéteis”.

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Gabarito

Certo

Comentário do professor

Crase: o acento em à marca a contração da preposição a com o artigo feminino a (a + a = à).

O verbo dever, no sentido de "ser causado por" ou "ser devido a", rege a preposição a: constrói‑se "dever(se) a algo" (ex.: "Isso se deve à chuva").

Em "se devia à ação de projéteis", temos a preposição exigida pelo verbo unida ao artigo que determina "ação" (feminino), resultando na forma contraída marcada pela crase.

O pronome se (índice de passiva ou partícula apassivadora) não impede a ocorrência da crase; ele integra a construção verbal, sem suprimir a preposição exigida.

Se não houvesse o artigo diante de "ação", não ocorreria crase; aqui, porém, a presença do artigo torna o acento obrigatório.

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