Questão FC670183
Texto para o item. É provável que a Medicina tenha surgido com a humanidade. Vítima e testemunha do sofrimento, o ser humano deve, desde logo, ter‑se debruçado sobre os doentes, co
Outras Questões de Português e Questões Mescladas (Interpretação de Textos ou Gramática)
QUADRIX · 2025
Texto para o item.
É provável que a Medicina tenha surgido com a humanidade. Vítima e testemunha do sofrimento, o ser humano deve, desde logo, ter‑se debruçado sobre os doentes, com o desejo de curá‑los. É possível que encarasse a doença como ocorrência sobrenatural, tal como os ventos, as tempestades ou as manifestações de deuses malévolos. A doença, com suas dolorosas consequências, seria obra de algum espírito, cuja ira importaria aplacar com os sacrifícios, ou seria obra de alguminimigo, dotado de poderes especiais, cuja animosidade haveria de ser combatida por meio de sortilégios.
Nesse quadro geral, a doença foi diversamente contemplada, ora como fruto de invasão do organismo por matéria estranha, ora como “perda da alma”, ora em termos de corpo possuído por fantasmas, ora como decorrência do rompimento de tabus, entre outras formas.
Povos primitivos entendiam a doença como algo que se devia à ação de projéteis: lanças, flechas, pedras atiradas por inimigos ou, talvez, ossos e espinhos que alguém engolia sem querer, em virtude da ação de forças adversas, humanas ou sobre‑humanas. Em alguns casos, o projétil é um organismo (um verme, por exemplo), cujos movimentos, na pessoa afetada, explicariam dores agudas ou o mal‑estar súbito. A terapia, nessas várias situações, resumir‑se‑ia à localização e à remoção do invasor, sem excluir, muitas vezes, a possibilidade de devolvê‑lo ao remetente.
A alma, para povos primitivos, não seria entendida em fundamentos teológicos ou metafísicos, mas como sombra ou duplo da pessoa. Esse duplo teria condições, às vezes, de separar‑se do corpo, graças à ação mágica dos deuses ou de eventuais inimigos humanos. A terapia aconselhável consistia em reencontrar a alma para devolvê‑la ao proprietário. No caso de invasão por demônio, a pessoa adoecia porque era possuída por espíritos ou almas estranhas, cuja terapia consistia em tratamentos psicológicos (exorcismo), em extrações mecânicas (alcançada por ingestão de substâncias ou por aspiração de vapores presumivelmente não apreciados pelo invasor) ou em transferências (procurando‑se enviar a alma estranha para outro corpo – animal ou objeto capaz de retê‑la).
Quando se alude à quebra de tabus, entendia‑se a doença como punição: o doente era castigado por haver‑se rebelado contra imperativos religiosos ou sociais. Deuses e almas de antepassados puniam os homens que não se curvavam diante dos mandamentos vigentes.
Em certas circunstâncias, era preciso distinguir a culpa individual da coletiva: males que afligiam a tribo eram associados a uma culpa coletiva, um erro ou uma desobediência generalizada, que dava origem aos males e às epidemias. Em qualquer caso, a terapia envolvia interrogatório e confissão de culpa. Confessada a culpa, as pessoas castigadas, prometendo fidelidade aos mandamentos em vigor, adquiriam condições de curar‑se.
HEGENBERG, Leonidas. Evolução histórica do conceito
de doença. In: L. Hegenberg (org.). Doença: um estudo filosófico. Rio de Janeiro: Fiocruz, 1998 (com adaptações).
Com referência ao texto e a seus aspectos linguísticos e gramaticais, julgue o item seguinte.
No segundo parágrafo do texto, são enumeradas explicitamente três explicações para a ocorrência de doenças, as quais estão descritas nos próximos parágrafos do texto.
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Gabarito
Certo
Comentário do professor
O item é CERTO porque o segundo parágrafo apresenta uma enumeração de concepções causais que é, em seguida, desenvolvida nos parágrafos seguintes.
Embora apareçam quatro locuções na enumeração, duas delas formam uma única categoria explicativa: “perda da alma” e “corpo possuído por fantasmas” são variações da mesma explicação de caráter espiritual. Assim, entende‑se três grupos principais: invasão por matéria estranha, causas espirituais (perda/posse da alma) e rompimento de tabus.
Os parágrafos subsequentes correspondem a esse esquema: o terceiro trata da invasão por projéteis/organismos, o quarto aprofunda a ideia da alma e da possessão, e o quinto aborda a punição por quebra de tabus. Por isso, a afirmação está correta.
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