Questão FC687782
Leia o texto a seguir para responder a questão a seguir. Sala em casa do juiz de paz. Mesa no meio com papéis, cadeiras. Entra o juiz de paz vestido de calça branca, sobrecasaca de
Linguagem
QUADRIX · 2025
Leia o texto a seguir para responder a questão a seguir.
Sala em casa do juiz de paz.
Mesa no meio com papéis, cadeiras. Entra o juiz de paz vestido de calça branca, sobrecasaca de riscado, chinelas verde e sem gravata
. – Vamo‑nos preparando para dar audiência.
(ARRANJA OS PAPÉIS.) O escrivão já tarda; sem dúvida, está na venda do Manuel do Coqueiro...
O último recruta que se fez já vai‑me fazendo peso.
Nada, não gosto de presos em casa.
Podem fugir, e depois dizem que o juiz recebeu algum presente.
(BATEM À PORTA) – Quem é? Pode entrar.
(ENTRA UM ESCRAVO COM UM CACHO DE BANANAS E UMA CARTA, QUE ENTREGA AO JUIZ.
O JUIZ, LENDO A CARTA:) “Ilmº Sr. Muito me alegro de dizer a V. Sª que a minha intenção, ao fazer desta, é boa, e que a mesma desejo para V. Sª pelos circunlóquios com que lhe venero”.
(DEIXANDO DE LER:) – Circunlóquios...
Que nome em breve! O que quererá ele dizer? Continuemos. (LENDO:) “Tomo a liberdade de mandar a V. Sª um cacho de bananas‑maçãs para V. Sª comer com a sua boca e dar também a comer à Srª Juíza e aos Srs. Juizinhos.
V. Sª há‑de reparar na insignificância do presente; porém, Ilmº Sr., as reformas da Constituição permitem a cada um fazer o que quiser, e mesmo fazer presentes; ora, mandando assim as ditas reformas, V. Sª fará o favor de aceitar as ditas bananas, que diz minha Teresa serem muito boas.
No mais, receba as ordens de quem é seu venerador e tem a honra de ser ‘Manuel André de Sapiruruca’.”
– Bom, tenho bananas para a sobremesa. Ó pai, leva estas bananas para dentro e as entrega à senhora.
Toma lá um vintém para teu tabaco. (SAI O ESCRAVO).
O certo é que é bem bom ser juiz de paz cá pela roça. De vez em quando, temos nossos presentes de galinhas, bananas, ovos, etc., etc. (BATEM À PORTA) – Quem é? Escrivão (DENTRO): – Sou eu. Juiz: – Ah, é o escrivão. Pode entrar.
PENA, Martins. O juiz de paz na roça. Cena IX. 1838. In: Lydinéa Gasman. Documentos históricos brasileiros. Rio de Janeiro, Fename, 1976, p. 181 e 182 (com adaptações).
Quanto ao contexto e ao emprego da oração “para V. Sª comer com a sua boca e dar também a comer à Srª Juíza e aos Srs. Juizinhos” no texto, é correto afirmar que
- a expressão “com a sua boca”, no trecho “comer com a sua boca”, apresenta redundância desnecessária e configura erro gramatical.
- a expressão “fazer alguém comer” poderia ser uma expressão antônima adequada para “dar também a comer”.
- a expressão “com a sua boca” foi empregada como complemento do verbo “comer”, ou seja, mostra como se deve comer a banana.
- o acento grave em “à” poderia ser suprimido, o que causaria apenas alteração do sentido denotativo.
- a expressão “dar também a comer” significa preparar a comida.
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Gabarito
A
Comentário do professor
A expressão "com a sua boca" em "comer com a sua boca" é redundante porque o verbo comer já pressupõe o uso da boca como instrumento; adicionar essa locução não acrescenta informação relevante.
Gramaticalmente, trata‑se de pleonasmo vicioso, isto é, repetição desnecessária de sentido que configura erro quando não há intenção estilística. A construção correta e mais econômica seria, por exemplo, "para V. Sª comer" ou "para que V. Sª coma".
Observação: locuções com com são aceitáveis quando indicam instrumento não óbvio (comer com a mão, comer com talheres), mas com a sua boca é tautológica e, portanto, inadequada no uso normativo.
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