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Questão FC689069

Quanto mais difícil, melhor Assim como os historiadores, bibliotecários e arquivistas, vivo profissionalmente às voltas com livros centenários, documentos antigos e recortes amarel

Interpretação de Textos (Compreensão)

CESGRANRIO · 2024

Quanto mais difícil, melhor

 

Assim como os historiadores, bibliotecários e arquivistas, vivo profissionalmente às voltas com livros centenários, documentos antigos e recortes amarelados. Isso significa coabitar com poeira, mofo e populações inteiras de fungos. O problema é que sou alérgico a bolor e sofro as consequências do manuseio dessas relíquias. Um amigo me perguntou se uso máscara para trabalhar. Respondi: “Não. Uso espirro. A cada espirro voam várias gerações de fungos”.

 

A incompatibilidade entre certas condições físicas e a profissão de seus portadores pode ser dramática. Minha amiga, a feminista Rose Marie Muraro, nascida quase cega, precisava usar óculos muito grossos e lupa para conseguir ler. E qual era sua profissão? Leitora da Editora Vozes. Portinari, para muitos o maior pintor brasileiro, era alérgico a certas tintas. Morreu em 1962, envenenado por elas, depois de 40 anos de trabalho. E Garrincha, cujos dribles você sabe, tinha uma perna para dentro e outra para fora, como dois parênteses lado a lado: )).

 

Beethoven era surdo, o que, pelo visto, não lhe fazia diferença. Django Reinhardt, imortal guitarrista do jazz, tinha dois dedos paralisados na mão esquerda. E a Harold Lloyd, um dos grandes da comédia no cinema mudo americano, faltavam dois na direita — e foi sem eles que escalou um edifício em Nova York em seu filme “O Homem-Mosca” (1923), fazendo ele próprio quase todas as cenas.

 

John Wayne, Humphrey Bogart, James Stewart, Frank Sinatra, Bing Crosby, Fred Astaire, Gene Kelly, Henry Fonda e Sean Connery tinham algo em comum: eram carecas. Não que haja problema nisso (e eu mesmo já posso tecnicamente ser chamado de), mas, na velha Hollywood, Ava Gardner, Grace Kelly e Raquel Welch nunca poderiam ser beijadas por carecas, ainda que galãs. Sem problema — as perucas eram tão perfeitas que ninguém notava.

 

Este artigo deve me custar uns cinco espirros.

 

Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/colunas/

ruycastro/2023/12/quanto-mais-dificil-melhor.shtml?pwg

t=kye73frks3762ppiv3c8ms8agtyutnr6i2zmqyam6pqtcz

5u&utm_source=whatsapp&utm_medium=social&utm_

campaign=compwagift. Acesso em: 20 dez. 2023.Adaptado.

 

O texto escrito por Ruy Castro é uma crônica cujo objetivo principal é

  1. demonstrar a cientificidade do conceito de meritocracia na vida profissional.
  2. provar que as deficiências constituem um sério óbice para determinados ofícios.
  3. enumerar, por meio de casos fictícios, algumas contradições das biografias dos gênios.
  4. ilustrar, por meio de casos reais, o aparente desencontro entre certas profissões e as supostas deficiências dos que as exerceram.
  5. defender que a falta dos requisitos básicos certamente compromete o bom desenvolvimento de uma carreira.
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Gabarito

D

Comentário do professor

Ilustrar é o propósito central do texto: Ruy Castro reúne episódios de vida para mostrar um aparente desencontro entre certas profissões e as supostas deficiências de quem as exerceu.

Na forma de crônica, o autor não argumenta teoricamente, mas apresenta casos reais — sua própria alergia, Rose Marie Muraro, Portinari, Beethoven, Django, Garrincha, atores carecas — como evidências que chamam a atenção para essa contradição.

O efeito vem da justaposição de fatos e do tom irônico e leve. As anedotas funcionam como exemplos que iluminam o tema: limitações físicas coexistindo com sucesso profissional.

Assim, o objetivo principal é exemplificar, por meio de relatos concretos, a surpresa diante da incongruência entre deficiência aparente e desempenho em determinada profissão.

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