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Questão FC716666

Leia o texto a seguir para responder a questão. Montanha Rachel de Queiroz Há homens do mar e homens do rio, homens da terra plana e homens da montanha, tão diversos uns dos outros

Morfologia

Instituto AVALIA · 2025

Leia o texto a seguir para responder a questão.

 

Montanha

 

Rachel de Queiroz

 

Há homens do mar e homens do rio, homens da terra plana e homens da montanha, tão diversos uns dos outros como se fossem de raças diferentes. Nativa da praia e da catinga, confesso que, por mim, tenho medo de montanha. Tão altas, tão brutas, com suas rampas de pedra inacessíveis, e até a beleza dos vales lá embaixo é rodeada pela traição dos despenhadeiros.

 

Não é a cidade, nem as fábricas, nem nenhuma das formas do progresso mecânico que mais me demonstram o atrevimento do homem; é a montanha. Está um homenzinho cá embaixo, na planície, munido apenas das suas duas pernas, e lá em cima vê torrear os monstros, ásperos e verdes, vê os precipícios temerosos, vê azular de encontro às nuvens os picos altíssimos. Pois se vai ele, abandonando a sua planura e a sua segurança, abrindo trilha no flanco do gigante, e escala as serras, e escolhe local de pouso e moradia, e desvenda os mistérios de entre os montes, e aceita como destino e meio de vida o eterno sobe e desce de ladeiras, e faz dos precipícios o seu cotidiano. E vive feliz, e atrai outros atrevidos para o seu lado – e quando se vê está constituído todo um povo de montanheses – fato, afinal, tão admirável quanto se de nossa espécie se constituísse de repente um povo de anfíbios...

 

Vê-se, pois, que foi exagero euclidiano dizer que o sertanejo é que é antes de tudo um forte. Qual, o sertanejo é principalmente um sofredor. É o fatalista, que recebe como lhe caem por cima as pragas e as poucas bênçãos do destino; enquanto o montanhês é o agressivo, o domador da fera. O sertanejo foi se chegando aos poucos – cada dia, cada ano, caminhava mais uma légua, seguindo no rastro do boi; enquanto o candidato a montanhês teve necessariamente o seu momento de decisão, na hora em que se resolve a enfrentar o salto que o levará cá de baixo às altitudes da serra, e, através da trilha difícil que ele mesmo tem que construir, marcar o seu lugar numa riba de cordilheira, nele se empoleirar e de lá olhar o mundo como um vitorioso.

 

Isto não é um apólogo. Será quando muito um débil aviso de perigo. Durante anos e anos tivemos o domínio dos homens do planalto e não se deve confundir planalto com montanha; os do planalto só têm da montanha as vantagens, que é a altitude sem a aspereza de picos e morros. O planalto faz trabalhadores e aristocratas, não forja guerrilheiros. Depois subiram os do pampa, a planície por definição. Ficaram também muito tempo – tanto tempo que tem sido difícil desalojá-los, e para os contentar ainda foi preciso entregar-lhes um bom quinhão dos despojos. (...)

 

Disponível em: https://cronicabrasileira.org.br/cronicas/9252/montanha. Acesso em: 28 de out. 2025.

 

“Pois se vai ele, abandonando a sua planura e a sua segurança, abrindo trilha no flanco do gigante, e escala as serras, e escolhe local de pouso e moradia, e desvenda os mistérios de entre os montes, e aceita como destino e meio de vida o eterno sobe e desce de ladeiras, e faz dos precipícios o seu cotidiano.”

 

As palavras destacadas no trecho caracterizam a seguinte figura de linguagem e seu correspondente efeito de sentido:

  1. pleonasmo – a repetição da mesma palavra enfatiza a sequência de ações praticadas.
  2. hipérbole – a repetição da mesma palavra exagera a sequência de ações praticadas.
  3. polissíndeto – cada palavra realça uma ação, intensificando a ideia de realização dos atos.
  4. eufemismo – cada palavra suaviza uma ação, amenizando a ideia de realização dos atos.
  5. hipérbato – cada palavra produz uma alteração brusca na organização dos elementos da frase.
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Gabarito

Certo

Comentário do professor

O polissíndeto consiste na repetição deliberada de uma conjunção para ligar termos ou orações. No trecho analisado, a conjunção e reaparece entre verbos e ações, funcionando como recurso estilístico.

Cada e isola e realça uma etapa do processo: subir, escolher, desvendar, aceitar, fazer. Essa repetição transforma a enumeração em unidades sucessivas, valorizando cada ato.

O efeito é de ritmo acumulativo e de progressão: o leitor percebe esforço contínuo, persistência e encadeamento de realizações, como se cada ação fosse conquistada separadamente.

Portanto, o polissíndeto intensifica a ideia de realização dos atos, conferindo ênfase e vigor à descrição do montanhês.

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