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Questão FC716727

Sou o último ser humano que se imaginava com uma tatuagem — a tela em branco entre os amigos, a pessoa que não muda tanto assim, mas que tem medo do aspecto permanente da tinta. Um

Vocábulo "Que"

Instituto AVALIA · 2024

Leia o texto a seguir para responder a questão seguinte.

Tatuagens para todos

 

Carol Bensimon

 

Sou o último ser humano que se imaginava com uma tatuagem — a tela em branco entre os amigos, a pessoa que não muda tanto assim, mas que tem medo do aspecto permanente da tinta. Um belo dia, no entanto, começo a pensar em carregar para sempre no braço um tipo específico de árvore, que simbolizaria uma experiência x, muito importante na minha vida, e blá blá blá. Instantes depois, estou falando sobre essa vontade no Facebook. Estou pedindo opiniões. Estou recebendo incontáveis incentivos. Um conhecido me passa o contato de uma tatuadora que está com a agenda cheia pelos próximos 10 meses. Por que agora todo o tipo de gente, de todas as idades, quer rosas, nomes de filho, frases em alemão ou robôs guerreiros na pele?

 

Começo a pensar sobre a popularização da tatuagem e deixo minha árvore meio de lado. Melhor ter certeza. Sinto que apenas isso — “um tempo para amadurecer a ideia” — já me coloca anos-luz distante do pessoal de vinte e poucos anos, que normalmente não frita a cabeça refletindo sobre o desenho perfeito, o mais significativo entre todas as opções cogitadas, ou se ele vai fazer sentido depois de uma década ou mais. Segundo uma pesquisa realizada nos Estados Unidos em 2014, 36% dos jovens norte-americanos de 18 a 25 anos tinham ao menos uma tatuagem.

 

Quando falamos em tatuagem, não há dúvida de que estamos falando da construção e da exposição de uma identidade. Nesse século 21, além de querermos nos sentir muito especiais e únicos, parece que precisamos estampar o que somos em praça pública — ou na arena virtual — o mais rápido possível, já que quase ninguém tem tempo ou paciência para se conhecer de fato. Nesse sentido, etiquetas facilitam e likes são muito bem-vindos. Em texto para a revista The Atlantic sobre tatuagens, o escritor Chris Weller resume muito bem essa ideia: “A modernidade nos leva a declarar nossa identidade com convicção, quer já a tenhamos encontrado ou não.”

 

Weller acredita, além disso, que o ato de se tatuar não se relaciona simplesmente com a busca por esse “eu”; a narrativa que vai se construindo na pele é a própria identidade. Ler esse acúmulo de desenhos e frases como uma narrativa da vida de alguém, aliás, pode explicar o fato de que a maioria dos tatuados consegue lidar com marcas do passado que talvez não façam tanto sentido hoje, algo semelhante a “essa cicatriz aqui foi de quando sofri um acidente de moto”. Uma parte de nossa história, em resumo, para o bem ou para o mal. Ainda assim, segundo uma pesquisa divulgada pelo The Guardian, 23% dos adultos britânicos se dizem arrependidos de ter feito uma tatuagem.

 

(...) Weller oferece uma outra chave de interpretação: a nova geração não está fugindo de um senso de estabilidade e permanência, mas está buscando isso desesperadamente. Faz sentido. Ela está dizendo que não quer que o mundo gire tão rápido. Que precisa se definir, ser e ter alguma coisa no meio desse turbilhão. Soma-se a isso o fato de que, diferente das anteriores, essa é uma geração que ainda não conquistou coisas concretas (e alguns deles simplesmente não estão interessados nisso). Se não há carros, casas, carreiras sólidas, relacionamentos de décadas, há, então, tatuagens. Algo que dure. Precisamos todos de algo que dure.

 

Adaptado de: https://www.escrevendoofuturo.org.br/arquivos/8147/caderno-cronica.pdf.

 

Analise o emprego das palavras “que” destacadas em cada par de enunciados a seguir. Em seguida, assinale a alternativa em que a função morfossintática exercida por uma é a mesma da outra palavra destacada na própria alternativa.

  1. “Ela está dizendo que não quer que o mundo gire tão rápido.” / “Ela está dizendo que não quer que o mundo gire tão rápido.”
  2. “Sou o último ser humano que se imaginava com uma tatuagem.” / “Sinto que apenas isso (...) já me coloca anos-luz distante do pessoal de vinte e poucos anos.”
  3. “Um conhecido me passa o contato de uma tatuadora que está com a agenda cheia pelos próximos 10 meses.” / “Weller acredita, além disso, que o ato de se tatuar não se relaciona simplesmente com a busca por esse ‘eu’.”
  4. “Nesse século 21 (...) parece que precisamos estampar o que somos em praça pública.” / “Nesse século 21 (...) parece que precisamos estampar o que somos em praça pública.”
  5. “a tela em branco entre os amigos, a pessoa que não muda tanto assim.” / “Por que agora todo o tipo de gente, de todas as idades, quer rosas, nomes de filho, frases em alemão ou robôs guerreiros na pele?”
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Gabarito

A

Comentário do professor

Nas duas ocorrências de que na frase apresentada, a palavra funciona como conjunção integrante, ou seja, introduz uma oração subordinada que completa o sentido do verbo da oração principal.

No primeiro caso, “Ela está dizendo que não quer...”, a oração introduzida por que é complemento do verbo dizer (oração subordinada substantiva objetiva direta).
No segundo, “...que não quer que o mundo gire tão rápido.”, o que também introduz uma oração subordinada que funciona como complemento do verbo quer (também oração subordinada substantiva objetiva direta).

Em ambos os exemplos, que não tem valor relativo nem aponta para um antecedente; sua função é conectar e integrar a oração subordinada ao verbo regente.

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