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Questão FC716738

Os celulares podem ser perigosos de várias maneiras, mesmo que não derretam o cérebro, como se andou espalhando há algum tempo. Imagino uma velhinha que ganhou um celular dos netos

Interpretação de Textos (Compreensão)

Instituto AVALIA · 2025

Leia o texto a seguir e responda a questão.

 

Fiu-fiu

 

(Luis Fernando Veríssimo)

 

Existe coisa mais melancólica do que uma mesa de quatro pessoas, num restaurante, em que três estão dedilhando seus smartphones e uma está falando sozinha?

 

Lançaram agora um celular à prova d’água, que você pode usar no chuveiro. Ou em qualquer outro lugar embaixo d’água. No mar, por exemplo.

 

— Bem, não me espere para o jantar...

 

— Onde você está?

 

— Sabe a nossa pesca submarina?

— O que houve?

— Pensei que fosse uma garoupa e era um tubarão. E ele está vindo na minha direção.

— Você ainda está embaixo d’água?!

— Estou.

— E o seu arpão?

— O tubarão engoliu!

— Ligue para a Guarda Costeira!

 

São cada vez mais raros os lugares em que você pode se ver livre de celulares, e agora nem as piscinas estão seguras.

 

Os celulares são práticos e se tornaram indispensáveis, eu sei, mas empobreceram a vida social. Existe coisa mais melancólica do que uma mesa de quatro pessoas, num restaurante, em que três estão dedilhando seus smartphones e uma está falando sozinha? Ou um casal em outra mesa, os dois mergulhados nos respectivos celulares sem nem se olharem, o que dirá se falarem — a não ser que estejam trocando mensagens silenciosas entre si, o que é ainda mais triste?

 

Os celulares podem ser perigosos de várias maneiras, mesmo que não derretam o cérebro, como se andou espalhando há algum tempo. Imagino uma velhinha que ganhou um celular dos netos sem que estes se dessem ao trabalho de explicar seu funcionamento para a vovó. Não contaram, por exemplo, que o celular dado assobia quando recebe uma mensagem. É um assovio humano, um nítido fiu-fiu avisando que alguém ligou, e que pode soar a qualquer hora do dia ou da noite. E imagino a vovó, que mora sozinha, dormindo e, de repente, acordando com o assovio. Um fiu-fiu no meio da noite! A vovó, se não morrer imediatamente do coração, pode ficar apavorada. Quem está lá? Um ladrão ou um fantasma assoviador? E o assovio tem algo de galante. A vovó pode muito bem sair da cama, sem saber se está acordada ou sonhando, e caminhar na direção do fiu-fiu sedutor, como se tivessem vindo buscá-la. Alguém pensou nas vovós solitárias quando inventou o assovio?

 

O fato é que não há mais refúgio. Nem castelos anti- smartphones com um fosso em volta. Eles agora podem atravessar o fosso.

 

Disponível em: https://oglobo.globo.com/opiniao/fiu-fiu-13464128

 

Na crônica, o autor utiliza situações exageradas envolvendo o uso de celulares para

  1. demonstrar que os aparelhos celulares são essencialmente perigosos e deveriam ser proibidos.
  2. criticar o avanço da tecnologia e defender um retorno aos meios de comunicação antigos.
  3. ressaltar, de forma humorística, que a presença constante de celulares empobrece o convívio social.
  4. mostrar que as pessoas mais idosas não conseguem lidar com a tecnologia e acabam prejudicadas.
  5. incentivar o uso de aparelhos à prova d’água para evitar acidentes no mar.
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Gabarito

Certo

Comentário do professor

Na crônica, o autor recorre ao exagero e a situações improváveis para, com tom humorístico, criticar o uso excessivo de celulares. A hipérbole torna visíveis os efeitos negativos do hábito cotidiano.

Ao apresentar imagens cômicas, como a mesa em que três pessoas teclam enquanto uma conversa sozinha, ou o celular subaquático que gera pânico, o texto transforma um problema social em cena ridícula. Esse recurso evidencia, por contraste, o que se perde nas interações presenciais.

Assim, a intenção não é apenas divertir, mas ressaltar que a presença constante de aparelhos empobrece a convivência social, fragilizando vínculos e situações humanas que deveriam ser compartilhadas sem mediação tecnológica.

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