Questão FC716751
Sou o último ser humano que se imaginava com uma tatuagem — a tela em branco entre os amigos, a pessoa que não muda tanto assim, mas que tem medo do aspecto permanente da tinta. Um
Outras Questões de Português e Questões Mescladas (Interpretação de Textos ou Gramática)
Instituto AVALIA · 2024
Leia o texto a seguir para responder a questão seguinte.
Tatuagens para todos
Carol Bensimon
Sou o último ser humano que se imaginava com uma tatuagem — a tela em branco entre os amigos, a pessoa que não muda tanto assim, mas que tem medo do aspecto permanente da tinta. Um belo dia, no entanto, começo a pensar em carregar para sempre no braço um tipo específico de árvore, que simbolizaria uma experiência x, muito importante na minha vida, e blá blá blá. Instantes depois, estou falando sobre essa vontade no Facebook. Estou pedindo opiniões. Estou recebendo incontáveis incentivos. Um conhecido me passa o contato de uma tatuadora que está com a agenda cheia pelos próximos 10 meses. Por que agora todo o tipo de gente, de todas as idades, quer rosas, nomes de filho, frases em alemão ou robôs guerreiros na pele?
Começo a pensar sobre a popularização da tatuagem e deixo minha árvore meio de lado. Melhor ter certeza. Sinto que apenas isso — “um tempo para amadurecer a ideia” — já me coloca anos-luz distante do pessoal de vinte e poucos anos, que normalmente não frita a cabeça refletindo sobre o desenho perfeito, o mais significativo entre todas as opções cogitadas, ou se ele vai fazer sentido depois de uma década ou mais. Segundo uma pesquisa realizada nos Estados Unidos em 2014, 36% dos jovens norte-americanos de 18 a 25 anos tinham ao menos uma tatuagem.
Quando falamos em tatuagem, não há dúvida de que estamos falando da construção e da exposição de uma identidade. Nesse século 21, além de querermos nos sentir muito especiais e únicos, parece que precisamos estampar o que somos em praça pública — ou na arena virtual — o mais rápido possível, já que quase ninguém tem tempo ou paciência para se conhecer de fato. Nesse sentido, etiquetas facilitam e likes são muito bem-vindos. Em texto para a revista The Atlantic sobre tatuagens, o escritor Chris Weller resume muito bem essa ideia: “A modernidade nos leva a declarar nossa identidade com convicção, quer já a tenhamos encontrado ou não.”
Weller acredita, além disso, que o ato de se tatuar não se relaciona simplesmente com a busca por esse “eu”; a narrativa que vai se construindo na pele é a própria identidade. Ler esse acúmulo de desenhos e frases como uma narrativa da vida de alguém, aliás, pode explicar o fato de que a maioria dos tatuados consegue lidar com marcas do passado que talvez não façam tanto sentido hoje, algo semelhante a “essa cicatriz aqui foi de quando sofri um acidente de moto”. Uma parte de nossa história, em resumo, para o bem ou para o mal. Ainda assim, segundo uma pesquisa divulgada pelo The Guardian, 23% dos adultos britânicos se dizem arrependidos de ter feito uma tatuagem.
(...) Weller oferece uma outra chave de interpretação: a nova geração não está fugindo de um senso de estabilidade e permanência, mas está buscando isso desesperadamente. Faz sentido. Ela está dizendo que não quer que o mundo gire tão rápido. Que precisa se definir, ser e ter alguma coisa no meio desse turbilhão. Soma-se a isso o fato de que, diferente das anteriores, essa é uma geração que ainda não conquistou coisas concretas (e alguns deles simplesmente não estão interessados nisso). Se não há carros, casas, carreiras sólidas, relacionamentos de décadas, há, então, tatuagens. Algo que dure. Precisamos todos de algo que dure.
Adaptado de: https://www.escrevendoofuturo.org.br/arquivos/8147/caderno-cronica.pdf.
Assinale a alternativa que apresenta uma característica que NÃO se encontra no texto “Tatuagens para todos”.
- Apresentação de dados estatísticos como forma de argumentar a defesa de uma ideia.
- Situação no tempo e no espaço como forma de contextualização.
- Apresentação de depoimentos pessoais como alternativas de raciocínio e de conclusão sobre o tema.
- Uso exclusivo da primeira pessoa como um recurso de distanciamento entre autor e leitor.
- Predomínio de linguagem formal, dentro da norma-padrão da Língua Portuguesa.
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Gabarito
D
Comentário do professor
"Uso exclusivo da primeira pessoa" como recurso de distanciamento não se verifica no texto.
O narrador realmente aparece em primeira pessoa em trechos como "Sou o último ser humano..." e "começo a pensar", mas o texto não se limita a essa voz. Há inserções em terceira pessoa e referência a fontes externas, por exemplo "Weller acredita" e menção a pesquisas, o que demonstra pluralidade de vozes.
Além disso, a presença da primeira pessoa funciona como aproximação subjetiva e reflexão pessoal, e não como mecanismo de distanciamento entre autor e leitor.
Logo, a afirmação é incompatível com a mistura de vozes e com a função que a primeira pessoa assume no texto.
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