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Questão FC831748

O ARRANJO Ela era cria da casa-grande, desde menina. Distraía-se e divertia-se com qualquer coisa, sem sorrir: não era alegre. Andava de corpo solto, boca aberta, olhos redondos. Q

Morfologia

Pró Reitoria GP CP2 · 2017

O ARRANJO

Ela era cria da casa-grande, desde menina. Distraía-se e divertia-se com qualquer coisa, sem sorrir: não era alegre. Andava de corpo solto, boca aberta, olhos redondos. Quando a dona da casa estava irada, chamava-a de débil mental. Diziam que qualquer homem a teria, se quisesse. Ela não ficava contente mas grávida. Então os patrões, realmente cansados de distribuir por famílias os seus filhos, a injuriavam. Não usavam violência porque por princípio não eram violentos. Mas se ela almoçava, diziam: é claro, a fome duplicou. Se não almoçava, diziam: é claro, perdeu o apetite. Mandavam-na trabalhar com ironia: “mas não vá ter antes do tempo! já arrumamos com que família esse aí vai ficar!” Ela não se ofendia. O corpo crescia, e ela ficava cada vez mais amarela sob a cor de mulata quase branca. O que os patrões não perdoavam é que dessa vez tivesse acontecido com um “negro sujo”, como se eles tivessem para ela planos de um homem menos negro e mais limpo. Às vezes, quando ela passava com a bandeja na mão, olhavam-na com curiosidade e diziam em tom velado por causa dos netos presentes: logo um negro sujo. Um dia pareceu compreender melhor e disse muito alto: mas foram só três vezes! As crianças exultavam felizes, o pai, a mãe e os avós caíram em cólera pela pouca vergonha, expulsaram-na da sala – ainda por cima tropeçou no tapete e caiu sobre a bandeja. Mas não era escrava, como a outra cria da casa. A outra cria da casa de Laranjeiras tornara-se uma mulher perfeita para cuidar das roupas e das crianças, uma verdadeira escrava. Mas ela não era escrava: vivia independente deles e dava à luz os seus próprios filhos, distribuídos depois como gatos, amarelados como a mãe.

Dois anos depois encontrei-a na rua e ela me disse com modéstia e recato que vivia com um português. “Estou agora mesmo esperando por ele, marquei encontro”, me disse encostada no poste. Ele afinal apareceu na curva da esquina: velho, e era por isso que ela não estava grávida, gordo, trôpego. “Ele é muito bom para mim”, disse, como se explicasse tudo. Ele se manteve a curta distância, ouviu a frase, e abaixou os olhos, escondendo nunca se saberá o quê.

LISPECTOR, Clarice. A descoberta do mundo. Rio de Janeiro: Rocco, 1998. p. 118.

O substantivo abstrato que compõe o título – “arranjo” – se justifica pelo fato de, no texto, dar-se foco

  1. ao modo como as mulheres negras concebiam seus filhos.
  2. às relações de trabalho exploratórias no período escravocrata.
  3. à maneira como se soluciona o destino da personagem negra.
  4. ao sofrimento experimentado pela mulher ao perder os filhos.
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Gabarito

Certo

Comentário do professor

Arranjo, como substantivo abstrato, remete aqui ao modo como se organiza ou se resolve a vida da personagem. O título incide sobre a forma pela qual seu destino é encaminhado, não sobre uma característica individual.


No texto há sinais claros desse encaminhamento: os patrões “distribuem” os filhos, tratam a situação como se fossem decisões alheias ao desejo dela e banalizam a sua condição. Essa distribuição revela um «arranjo» social que determine o futuro da mulher.


A cena final, em que ela vive com um português e aceita declarar que “ele é muito bom para mim”, sugere um desfecho também arranjado, isto é, uma solução imposta ou negociada para sua vida afetiva e social.


Assim, o título focaliza a maneira pela qual o destino da personagem é solucionado e organizado pelas circunstâncias e pelas ações dos outros.

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