Questão FC831749
O ARRANJO Ela era cria da casa-grande, desde menina. Distraía-se e divertia-se com qualquer coisa, sem sorrir: não era alegre. Andava de corpo solto, boca aberta, olhos redondos. Q
Morfologia
Pró Reitoria GP CP2 · 2017
O ARRANJO
Ela era cria da casa-grande, desde menina. Distraía-se e divertia-se com qualquer coisa, sem sorrir: não era alegre. Andava de corpo solto, boca aberta, olhos redondos. Quando a dona da casa estava irada, chamava-a de débil mental. Diziam que qualquer homem a teria, se quisesse. Ela não ficava contente mas grávida. Então os patrões, realmente cansados de distribuir por famílias os seus filhos, a injuriavam. Não usavam violência porque por princípio não eram violentos. Mas se ela almoçava, diziam: é claro, a fome duplicou. Se não almoçava, diziam: é claro, perdeu o apetite. Mandavam-na trabalhar com ironia: “mas não vá ter antes do tempo! já arrumamos com que família esse aí vai ficar!” Ela não se ofendia. O corpo crescia, e ela ficava cada vez mais amarela sob a cor de mulata quase branca. O que os patrões não perdoavam é que dessa vez tivesse acontecido com um “negro sujo”, como se eles tivessem para ela planos de um homem menos negro e mais limpo. Às vezes, quando ela passava com a bandeja na mão, olhavam-na com curiosidade e diziam em tom velado por causa dos netos presentes: logo um negro sujo. Um dia pareceu compreender melhor e disse muito alto: mas foram só três vezes! As crianças exultavam felizes, o pai, a mãe e os avós caíram em cólera pela pouca vergonha, expulsaram-na da sala – ainda por cima tropeçou no tapete e caiu sobre a bandeja. Mas não era escrava, como a outra cria da casa. A outra cria da casa de Laranjeiras tornara-se uma mulher perfeita para cuidar das roupas e das crianças, uma verdadeira escrava. Mas ela não era escrava: vivia independente deles e dava à luz os seus próprios filhos, distribuídos depois como gatos, amarelados como a mãe.
Dois anos depois encontrei-a na rua e ela me disse com modéstia e recato que vivia com um português. “Estou agora mesmo esperando por ele, marquei encontro”, me disse encostada no poste. Ele afinal apareceu na curva da esquina: velho, e era por isso que ela não estava grávida, gordo, trôpego. “Ele é muito bom para mim”, disse, como se explicasse tudo. Ele se manteve a curta distância, ouviu a frase, e abaixou os olhos, escondendo nunca se saberá o quê.
LISPECTOR, Clarice. A descoberta do mundo. Rio de Janeiro: Rocco, 1998. p. 118.
Os adjetivos “solto”, “aberta” e “redondos” servem como justificava, no contexto, para o fato de os patrões julgarem a personagem
- “alegre”.
- “débil mental”.
- “mulata”.
- “verdadeira escrava”.
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Gabarito
B
Comentário do professor
Os adjetivos apontam para uma impressão física e comportamental que leva os patrões a rotularem-na como débil mental. No texto, a personagem é descrita como distraída e com atitudes corporais que sugerem ausência de controle ou atenção.
As palavras solto (postura relaxada e desinibida), boca aberta (expressão pasmada) e olhos redondos (olhar fixo, surpreendido) compõem uma imagem de alguém alheio ao ambiente. Essa combinação é interpretada, pelos patrões, como indício de incapacidade intelectual.
Trata‑se, portanto, de uma leitura imediata e preconceituosa do comportamento físico: os traços descritos justificam, no contexto narrativo, o epíteto depreciativo débil mental atribuído a ela.
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