Questão FC831787
TEXTO 4 BECOS DA MEMÓRIA – fragmento (...) Saudades de um tempo, de um lugar, de uma vida que ela nunca vivera. Entretanto o que doía mesmo em Maria-Nova era ver que tudo se repeti
Semântica
Pró Reitoria GP CP2 · 2024
TEXTO 4
BECOS DA MEMÓRIA – fragmento
(...) Saudades de um tempo, de um lugar, de uma vida que ela nunca vivera. Entretanto o que doía mesmo em Maria-Nova era ver que tudo se repetia, um pouco diferente, mas, no fundo, a miséria era a mesma. O seu povo, os oprimidos, os miseráveis; em todas as histórias, quase nunca eram os vencedores, e sim, quase sempre, os vencidos. A ferida dos do lado de cá sempre ardia, doía e sangrava muito.
A menina, apesar da dor, pedia mais e mais aquela história. Gostava de alguns pontos coincidentes entre ela e o Homem. Ambos, quando pequenos, tinham o desejo de aprender a ler. Pequenina ainda, se entretinha horas e horas com revistas e jornais que a mãe e a tia lhe traziam. Tio Tatão, por vez ou outra, aparecia com um presente, um livro. Maria-Velha e Mãe Joana sabiam ler. Maria-Velha aprendera com uns missionários que volta e meia apareciam no lugarejo em que foram criadas. Mãe Joana aprendera sozinha catando cuidadosamente as letras, nas horas de folga nas casas em que trabalhava. Era, talvez, por isso o seu grande desejo e esforço para que os filhos aprendessem a leitura. Todos foram para a escola. Muitas vezes a fome acompanhava as crianças pelo caminho, pois o pouco dinheiro do pão era desvirtuado para a compra de um caderno, lápis ou borracha. Elas caminhavam rápidas, e aflitas esperavam pela hora da merenda. Maria-Nova, à medida que aprendia, se tornava mestra dos irmãos menores e das crianças vizinhas. Maria-Nova crescia, lia, crescia.
EVARISTO, Conceição. Becos da memória. 1ª ed. Rio de Janeiro: Pallas, 2017. p. 6
Carregado de lirismo e poesia, o texto de Conceição Evaristo se caracteriza pela utilização de uma linguagem figurada que busca transmitir, com leveza, as agruras vivenciadas por suas personagens. Assinale a alternativa cujo trecho se constrói, exclusivamente, com linguagem conotativa.
- “Gostava de alguns pontos coincidentes entre ela e o Homem.”
- “Ambos, quando pequenos, tinham o desejo de aprender a ler.”
- “Tio Tatão, por vez ou outra, aparecia com um presente, um livro.”
- “Mãe Joana aprendera sozinha catando cuidadosamente as letras...”
- “o pouco dinheiro do pão era desvirtuado para a compra de um caderno, lápis ou borracha.”
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Gabarito
D
Comentário do professor
Na frase “Mãe Joana aprendera sozinha catando cuidadosamente as letras”, a expressão central utiliza sentido figurado: o verbo catando é conotativo, transferindo a ação de recolher objetos palpáveis para o processo de apreensão da leitura.
Essa metáfora cria uma imagem tátil e sensorial em que as letras viram “pequenos achados” que se juntam aos poucos, reforçando a ideia de esforço, escassez e cuidado. Não há descrição literal de quem colhe caracteres físicos; o efeito é poético e sugestivo.
Portanto, todo o trecho opera por figuras de linguagem, sendo integralmente conotativo, ao evocar emoção e experiência através de imagens metafóricas, e não por enunciação denotativa.
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