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Questão FC831804

— Compra, sim?

Semântica

Pró Reitoria GP CP2 · 2019

Texto I

CORTELLA: ‘A ESCOLA PASSOU A SER VISTA COMO UM ESPAÇO DE SALVAÇÃO’

O filósofo, educador e professor Mario Sergio Cortella alerta que as famílias estão confundindo

escolarização com educação; para ele, pais devem retomar seu papel.

Bia Reis, O Estado de S. Paulo 17 de maio de 2014 | 18h19

SÃO PAULO – As expectativas das famílias em relação às escolas e o que elas oferecem – ou são, de fato, capazes de ofertar – estão em descompasso. De um lado, há adultos cada vez menos presentes, seja pelo excesso de trabalho, pelos longos deslocamentos nas megalópoles ou até pela falta de paciência, que esperam que a escola ensine o conteúdo obrigatório e eduque os seus filhos. Do outro, as instituições se desdobram para dar conta de uma infinidade de disciplinas regulares e ainda são cobradas a disciplinar os alunos e abordar temas considerados pertinentes. Tudo em quatro horas diárias.

As críticas são feitas pelo professor, educador e filósofo Mario Sergio Cortella, que fala sobre a necessidade de uma parceria entre escolas e famílias, o impacto da tecnologia e como tornar as aulas mais atraentes.

O senhor fala em métodos de ensino do século 19, docentes do século 20 e alunos do século 21. É possível resolver o descompasso?

A escola tem de ficar em estado de prontidão para acompanhar uma parcela das mudanças, que acontecem de forma extremamente veloz. Isso porque nem tudo o que vem do passado tem de ser levado adiante. A escola precisa distinguir o que vem do passado e deve ser protegido, ou seja, o que é tradicional, daquilo que precisa ser deixado para trás porque é arcaico. Autoridade docente, atenção ao conteúdo e formação de personalidade ética são valores tradicionais. A escola tem de estar atenta às mudanças tecnológicas, mas não se submeter a elas. Vou dar um exemplo. Imagine se em 2004, quando foi criado o Orkut, uma escola criasse um projeto pedagógico baseado nessa rede social. Como um projeto pedagógico demora 10, 12 anos para ser aplicado na sequência de seriação, hoje ele já estaria obsoleto. Já pensou se quando o pen drive foi lançado outra escola tivesse decidido que todos os alunos deveriam organizar seus materiais nesse formato, que, chegou-se a dizer, substituiria a mochila? Hoje, nenhum jovem usa pen drive: eles guardam tudo em nuvens. Portanto, o que digo é que a escola tem de ficar atenta ao novo, mas não ser refém. [...]

Conversando com pais e professores, a impressão é de que estão insatisfeitos. As famílias se queixam das escolas e as escolas, dos pais. O que acontece?

Antes de mais nada, não estamos diante do crime perfeito, em que só há vítimas. Temos autor também. E essa autoria é multifacetada. A escola foi soterrada nos últimos 30 anos com uma série de ocupações de que ela não dá conta – e não dará. Em uma sociedade em que os adultos passaram a se ausentar da convivência com as crianças, seja por conta do excesso de trabalho, da distância nas megalópoles ou da falta de paciência para conviver com aqueles que têm menos idade, a escola ficou soterrada de tarefas. As famílias confundem escolarização com educação. É preciso lembrar que a escolarização é apenas uma parte da educação. Educar é tarefa da família. Muitas vezes, o casal não consegue, com o tempo de que dispõe, formar seus filhos e passa a tarefa ao professor, responsável por uma classe de 35 ou 40 alunos, tendo de lidar com educação artística, religiosa, ecológica, sexual, para o trânsito, contra a droga, português, matemática, história, biologia, língua estrangeira moderna, etc. etc. etc. A escola passou a ser vista como um espaço de salvação.

E como resolver a questão?

A família precisa retomar o seu papel, porque ter filho dá trabalho. Ou será que as pessoas não sabiam? Existe tempo, aplicação, reordenamento, partilha das tarefas. A escola não tem como dar conta de tudo o que dela hoje se requisita. Quando há um linchamento, querem que a escola fale sobre linchamento. O mesmo ocorre com briga em estádios, corrupção etc. E nem adianta o pai ou a mãe dizer: “A gente paga, a gente quer o serviço”. É preciso uma parceria entre a escola e as famílias. Uma ideia é manter, como algumas instituições fazem, uma escola de pais, com reuniões periódicas para ajudar as famílias na reflexão.

Disponível em: https://educacao.estadao.com.br. Acesso em: 4 ago. 2019.

Texto II

A PROFESSORA E A MALETA

A Professora era gorducha; a maleta também. A Professora era jovem; a maleta era velha, meio estragada [...].

A Professora gostava de ver a classe contente, mal entrava na aula e já ia contando uma coisa engraçada. Depois abria a maleta e escolhia o pacote do dia. Tinha pacote pequenininho, médio, grande, tinha pacote embrulhado em papel de seda, metido em saquinho de plástico, tinha pacote de tudo quanto é cor; não era à toa que a maleta ficava gorda daquele jeito.

Só pela cor do pacote as crianças já sabiam o que é que ia acontecer: pacote azul era dia de inventar brincadeira de juntar menino e menina; não ficava mais valendo aquela história mofada de menino só brinca disso, menina só brinca daquilo, meninos do lado de cá, meninas do lado de lá. Pacote cor-de-rosa era dia de aprender a cozinhar. A Professora remexia no pacote, entrava e saía da classe e, de repente, pronto! montava um fogão com bujãozinho de gás e tudo. Era um tal de experimentar receita que só vendo.

[...] E tinha um pacote branco que só servia pra Professora esconder e pra turma brincar de achar. Quem achava ia pro quadro-negro dar aula. [...]

No dia que Alexandre achou o pacote, resolveu contar pra turma como é que ele vendia amendoim na praia. No melhor da aula, um grupo de pais de alunos, que estava visitando a escola, entrou na sala. Quando a aula acabou, um deles perguntou pra Professora:

— A senhora está querendo ensinar meu filho a ganhar a vida vendendo amendoim? A)

A Professora explicou que Alexandre só estava contando pros colegas como era o trabalho dele, pra todos ficarem sabendo como é que ele vivia.

No outro dia saiu fofoca: contaram pro Alexandre que tinha um pessoal que não estava gostando da maleta da Professora.

— Que pessoal?

Um disse que era a diretora, outro disse que era uma outra professora, outro disse que era o pai de um aluno, outro falou que era o faxineiro, e foi um tal de um disse que o outro falou, que ninguém ficou sabendo direito.

Aí uns dias depois, choveu muito. [...] Quase ninguém foi à escola. Mas Alexandre foi. Entrou na classe e viu tudo vazio; chovia demais pra voltar pra casa; resolveu sentar e esperar. Lá pelas tantas a Professora chegou. Mas chegou sem a maleta. E com um jeito diferente, uma cara meio inchada, não contou coisa gozada, não riu nem nada. Sentou e ficou olhando pro chão. Alexandre achou que ela nem tinha visto ele:

— Oi!

Ela também disse oi, e continuou quieta. Depois de um tempo, Alexandre cansou de tanto ninguém dizer nada e falou:

— A chuva molhou sua cara.

A Professora nem se mexeu. Ele perguntou:

— Foi chuva?

Ela fez que sim com a cabeça. Alexandre resolveu esperar mais um pouco. Mas pelo jeito, a Professora tinha esquecido de dar aula. Será que era porque ela não tinha trazido a maleta? Arriscou:

— Cadê a maleta?

A Professora olhou pra ele sem saber muito bem o que é que dizia. Ele insistiu:

— Hem? Cadê?

— Perdi.

Ele se apavorou:

— Com tudo que tinha lá dentro?

— É.

— Os pacotes todos?

— É.

— O azul, o verde, o...

— É, é, é!!

Puxa, que susto! ela nunca tinha falado alto assim. Não perguntou mais nada, o coração ficou batendo, batendo, mas ela continuava sempre quieta, tão quieta que ele acabou não aguentando e perguntou de novo:

— Mas e agora? Como é que você vai dar aula sem a maleta? B)

— Não sei.

— Mas... escuta... você já procurou bem? — Ela fez que sim com a cabeça. — Botou anúncio no jornal? C) Diz que quando a gente bota anúncio quem acha dá pra gente. — Ela ficou quieta. — Botou?

— Botei.

— Ninguém achou?

— Não.

— Então como é que vai ser?

— Não sei.

— Dá jeito de você comprar os pacotes de novo? D)

— Não.

— Por quê? — Ela não disse nada. — Responde. Por quê?

— Eles vêm junto com a maleta; não vendem separado.

— Mas então compra outra maleta, pronto! — Ela ficou quieta de novo. E como o tempo ia passando e ela continuava sempre quieta, e a cara não secava nunca e não chovia lá dentro e a cara cada vez mais molhada, ele acabou pedindo:

— Compra, sim?

— Não dá, Alexandre. Eles não estão mais fabricando essas maletas hoje em dia.

E aí ele não perguntou mais nada. Ela também não falou mais. Até que a campainha tocou e a aula acabou.

BOJUNGA, Lygia. A casa da madrinha. 9. ed. Rio de Janeiro: Agir, 1986.

“ ‘A gente paga, a gente quer o serviço’.”  (Texto I)

O excerto acima, retirado do Texto I, pode ser relacionado, por reforço de sentido, com o seguinte trecho do Texto II:

  1. “— A senhora está querendo ensinar meu filho a ganhar a vida vendendo amendoim?”
  2. “Como é que você vai dar aula sem a maleta?”
  3. “— Botou anúncio no jornal?”
  4. “— Dá jeito de você comprar os pacotes de novo?”
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Gabarito

A

Comentário do professor

“A senhora está querendo ensinar meu filho a ganhar a vida vendendo amendoim?” espelha, por reforço de sentido, a ideia presente no excerto de Cortella: a escola vista como prestadora de serviço que deve suprir expectativas familiares.

O uso do possessivo meu evidencia uma postura de propriedade e transferência de responsabilidade: o pai trata o filho como objeto sobre o qual exige um resultado concreto. A pergunta transforma a relação educativa em contrato comercial, reforçando a crítica de que as famílias confundem escolarização com educação.

Assim, a fala do pai sintetiza a mentalidade consumista denunciada por Cortella, tornando a alternativa correta por compartilhar e intensificar o mesmo sentido crítico sobre o papel da família e da escola.

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