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Questão FC831827

O ARRANJO Ela era cria da casa-grande, desde menina. Distraía-se e divertia-se com qualquer coisa, sem sorrir: não era alegre. Andava de corpo solto, boca aberta, olhos redondos. Q

Pontuação (Ponto, Vírgula, Travessão, Aspas, Parênteses, etc)

Pró Reitoria GP CP2 · 2017

O ARRANJO

Ela era cria da casa-grande, desde menina. Distraía-se e divertia-se com qualquer coisa, sem sorrir: não era alegre. Andava de corpo solto, boca aberta, olhos redondos. Quando a dona da casa estava irada, chamava-a de débil mental. Diziam que qualquer homem a teria, se quisesse. Ela não ficava contente mas grávida. Então os patrões, realmente cansados de distribuir por famílias os seus filhos, a injuriavam. Não usavam violência porque por princípio não eram violentos. Mas se ela almoçava, diziam: é claro, a fome duplicou. Se não almoçava, diziam: é claro, perdeu o apetite. Mandavam-na trabalhar com ironia: “mas não vá ter antes do tempo! já arrumamos com que família esse aí vai ficar!” Ela não se ofendia. O corpo crescia, e ela ficava cada vez mais amarela sob a cor de mulata quase branca. O que os patrões não perdoavam é que dessa vez tivesse acontecido com um “negro sujo”, como se eles tivessem para ela planos de um homem menos negro e mais limpo. Às vezes, quando ela passava com a bandeja na mão, olhavam-na com curiosidade e diziam em tom velado por causa dos netos presentes: logo um negro sujo. Um dia pareceu compreender melhor e disse muito alto: mas foram só três vezes! As crianças exultavam felizes, o pai, a mãe e os avós caíram em cólera pela pouca vergonha, expulsaram-na da sala – ainda por cima tropeçou no tapete e caiu sobre a bandeja. Mas não era escrava, como a outra cria da casa. A outra cria da casa de Laranjeiras tornara-se uma mulher perfeita para cuidar das roupas e das crianças, uma verdadeira escrava. Mas ela não era escrava: vivia independente deles e dava à luz os seus próprios filhos, distribuídos depois como gatos, amarelados como a mãe.

Dois anos depois encontrei-a na rua e ela me disse com modéstia e recato que vivia com um português. “Estou agora mesmo esperando por ele, marquei encontro”, me disse encostada no poste. Ele afinal apareceu na curva da esquina: velho, e era por isso que ela não estava grávida, gordo, trôpego. “Ele é muito bom para mim”, disse, como se explicasse tudo. Ele se manteve a curta distância, ouviu a frase, e abaixou os olhos, escondendo nunca se saberá o quê.

LISPECTOR, Clarice. A descoberta do mundo. Rio de Janeiro: Rocco, 1998. p. 118.

Os dois-pontos utilizados no trecho “Não usavam violência porque por princípio não eram violentos. Mas se ela almoçava, diziam: é claro, a fome duplicou [...]” apresentam o mesmo valor sintático-semântico de

  1. “Distraía-se e divertia-se com qualquer coisa, sem sorrir: não era alegre.”.
  2. “Um dia pareceu compreender melhor e disse muito alto: mas foram só três vezes!”.
  3. “Mas ela não era escrava: vivia independente deles e dava à luz os seus próprios filhos”.
  4. “Ele afinal apareceu na curva da esquina: velho, e era por isso que ela não estava grávida”.
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Gabarito

B

Comentário do professor

Na alternativa B, os dois-pontos têm a função de introduzir a fala direta da personagem: o segmento anterior contém o verbo de enunciação (disse muito alto) e os dois-pontos anunciam o conteúdo verbalizado.

Sintaticamente, os dois-pontos ligam a oração que atribui a fala ao enunciado que reproduz o que foi dito; semanticamente, assinalam que o trecho seguinte corresponde a uma citação/manifestação da personagem, conferindo imediatidade e destaque à sua resposta (“mas foram só três vezes!”).

Assim, o valor dos dois-pontos aqui é o de marcar a transição entre a atribuição da fala e o enunciado proferido, caracterizando discurso direto e não uma explicação ou aposto.

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