Questão FC831847
OS DIREITOS DE MARIA "Direitos Humanos completam 50 anos" Especial, 3 dez. 98 Casaram exatamente no dia em que foi proclamada a Declaração Universal dos Direitos Humanos, a 10 de d
Coerência. Coesão (Anáfora, Catáfora, Uso dos Conectores - Pronomes Relativos, Conjunções, etc)
Pró Reitoria GP CP2 · 2017
OS DIREITOS DE MARIA
"Direitos Humanos completam 50 anos" Especial, 3 dez. 98
Casaram exatamente no dia em que foi proclamada a Declaração Universal dos Direitos Humanos, a 10 de dezembro de 1948. Uma coincidência que Maria sempre achou significativa.
Não que o casamento fosse feliz. Pelo contrário: o marido, homem violento, tratava-a brutalmente. Mas ela se resignava. Foi assim com minha avó e com minha mãe, pensava, será assim comigo também. Portanto fazia tudo o que uma dona de casa tinha de fazer – lavava, passava, cozinhava – sem se queixar. Mas, quando completaram os primeiros dez anos de casados, atreveu-se a pedir ao marido um presente: queria um casaco novo. Afinal, disse, meio brincando, era também o primeiro décimo aniversário da Declaração dos Direitos Humanos, e ela achava que, na qualidade de esposa dedicada, tinha direito a um casaco.
Você não tem direito nenhum, respondeu ele, seco. Cumpra suas obrigações e cale a boca.
Maria não respondeu, obviamente ficou com o casaco, que tratou de cuidar e remendar como podia. Mas, dez anos depois, no 20º aniversário de casamento (e da Declaração dos Direitos Humanos) ousou de novo formular um pedido: queria um vestido. De novo o marido respondeu que ela não tinha direito algum. Maria nunca mais ganhou um vestido.
No 30º aniversário, o pedido foi ainda mais modesto: uma blusa. De novo, nada de blusa: não tinha esse direito. No 40º aniversário, restringiu-se a solicitar um par de sapatos – mesmo usados –, mas não ganhou. Passou a andar de chinelos ou até descalça.
No 50º aniversário, não tinha mais o que pedir. E não poderia, mesmo, pedir nada: o marido a deixou uma semana antes do 10 de dezembro.
Ela agora está sozinha – não tiveram filhos – e livre. Não sabe o que fazer com sua liberdade. Gostaria de pedir ao marido, ao ex-marido, um conselho, mas sabe que ele não lhe daria. Na visão dele, nem a conselhos Maria tem direito.
SCLIAR, Moacyr. O imaginário coletivo. São Paulo: Editora Global, 2002.
Percebe-se que, na construção do texto, o cronista opta por sequenciar a narrativa, usando como parâmetro o aniversário de proclamação da Declaração Universal dos Direitos Humanos.
A repetição das sequências temporais faz o texto avançar e pode ser considerada um mecanismo eficaz de
- síntese.
- coesão.
- paráfrase.
- intertextualidade.
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Gabarito
B
Comentário do professor
Coesão é o recurso linguístico que liga elementos do texto, garantindo sua continuidade e facilitando a compreensão do leitor.
No conto, a repetição dos aniversários e a retomada dos pedidos em intervalos regulares funcionam como marcadores temporais que encadeiam os episódios.
Esses marcadores promovem a progressão textual: cada referência ao décimo aniversário avança a narrativa e mantém a unidade temática.
A sequência repetida cria ritmo e uma expectativa cumulativa, tornando clara a evolução da situação de Maria sem necessidade de explicações adicionais.
Portanto, o uso sistemático das datas e pedidos atua como dispositivo de coesão, amarrando as partes do texto e orientando a leitura para o desenvolvimento da ideia central.
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