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Questão FC831905

Texto I NUVENS DORIDAS (fragmento) Na escola, as paredes próximas à entrada dos alunos sempre traziam os apelidos dos jovens do bairro. Eu não os conhecia pelo rosto, tampouco pela

Interpretação de Textos (Compreensão)

Pró Reitoria GP CP2 · 2019

Texto I

NUVENS DORIDAS (fragmento)

Na escola, as paredes próximas à entrada dos alunos sempre traziam os apelidos dos jovens do bairro. Eu não os conhecia pelo rosto, tampouco pela voz, mas sim pelos seus codinomes sociais. A inspetora de alunos, que também fazia os bolos de aniversário de todos os vizinhos mais ricos do que eu, não gostava dessas paredes escritas. Sempre falava mal da grafia dos jovens e de nós, que não podíamos comprar seus bolos. Sempre que via algum novo apelido escrito, ia logo contando pra diretora, apontando seu indicador torto e arbitrário para qualquer um que aparecesse à sua frente:

─ Foi esse daí, ó! Tenho certeza!

[...]

Minha mãe era conhecida nas ruas e números e casas sobrepostas como dona Lourdes da limpeza, embora seu nome de registro seja Lourdes Ferreira.

[...]

Dona Lourdes da limpeza conseguiu mais um emprego. Aos sábados cuidava de uma senhora que, segundo ela, só conseguia abrir os olhos. Por conta disso, a organização da nossa casa passou a ser feita por mim. Cuidava de tudo como ela pedia e gostava. Lustrava cada canto só para ver um sorriso ao seu rosto. Sozinha, ela pouco ia até a casa da minha avó. Cansada, já não esquentava a mortadela aos sábados. Meu irmão mais velho parou de ir aos bancos. Explicou à minha mãe que muitas empresas procuravam por profissionais para fazer entrega rápida, assim ele conseguiria ganhar muito dinheiro em pouco tempo. Após essa conversa, ele passou a andar de moto platinada, usando casacos pretos e sempre com um relógio grande e reluzente no punho direito.

[...]

Meu irmão do meio aprumou sua alheada memória, passou a tirar notas boas e falava pra todo mundo que seria piloto de avião. De tal sorte que só queria usar camisa social engomada. No bairro o confundiam com pastor, mas ele pouco se incomodava, sabia que um dia habitaria o céu, mas de outra forma e por outro motivo. (I)

Já estávamos para finalizar o estudo formal. Eu ainda trabalhava com o senhor Katita, embora nos últimos meses com medo e pesar. E meu irmão do meio havia pedido um dinheiro emprestado ao meu irmão mais velho para conseguir fazer o tão sonhado curso de aviador.

Na última semana de aula a inspetora de alunos, acompanhada por dois policiais, se aproximou:

─ É esse daí, ó! Tenho certeza!

Com a face retorcida pelo chão e um gemido de incompreensão e dor, meu irmão do meio foi levado para um camburão. Não consegui entender nada. Não consegui pensar em nada. Dias depois, ainda carregando o hematoma da agressão sofrida, dei-me conta do ocorrido.

Foram semanas intensas... advogados, visitas, e vários nomes estranhos ao nosso entendimento.

Meu irmão mais velho chegou com outros jovens como ele. Aos gritos, minha mãe implorou que ele não fizesse nenhuma loucura. Gabriela e Canela não latiram como sempre faziam diante de gritos e confusões. No canto do portão ficaram, e viram, como eu, a saída do meu irmão com uma arma chamada vingança nas mãos, no peito e na mente. Eu nunca mais vi meu irmão e seus biscoitos. No dia da sepulcral despedida, ele, preto assim como eu, trazia um semblante hirto e acinzentado. Chegou ao céu antes do nosso irmão do meio, de outra forma, por outro motivo. (II)

LIMA, Beatriz. In: RIBEIRO, Esmeralda; BARBOSA, Márcio. Cadernos Negros, v. 40: contos. São Paulo: Quilombhoje, 2017, p. 81-88.

Atente para os fragmentos, lembrando que o primeiro refere-se ao irmão do meio e o segundo, ao irmão mais velho:

Fragmento I

De tal sorte que só queria usar camisa social engomada. No bairro o confundiam com pastor, mas ele pouco se incomodava, sabia que um dia habitaria o céu, mas de outra forma e por outro motivo.

Fragmento II

Eu nunca mais vi meu irmão e seus biscoitos. No dia da sepulcral despedida, ele, preto assim como eu, trazia um semblante hirto e acinzentado. Chegou ao céu antes do nosso irmão do meio, de outra forma, por outro motivo.

Considerando a leitura do Texto I, sobre as expressões em destaque é possível afirmar que,

  1. no Fragmento I, a expressão “de outra forma e por outro motivo” refere-se ao sonho de ser piloto de avião.
  2. no Fragmento I, a expressão “de outra forma e por outro motivo” refere-se aos animais de estimação, Gabriela e Canela.
  3. no Fragmento II, “de outra forma, por outro motivo” é uma referência à vida da dona Lourdes da limpeza.
  4. no Fragmento II, “de outra forma, por outro motivo” é uma referência ao trabalho da inspetora de alunos na escola.
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Gabarito

A

Comentário do professor

No Fragmento I, a expressão "de outra forma e por outro motivo" retoma a ideia de que o irmão do meio habitaria o céu não por vocação religiosa, mas por realizar seu sonho profissional.

O texto apresenta indícios: ele é confundido com pastor por causa da aparência, mas “pouco se incomodava” porque acreditava que um dia estaria no céu. Esse “estar no céu” funciona como metáfora ligada ao desejo explícito de ser piloto, que inevitavelmente o colocaria literalmente nos céus.

Assim, a expressão qualifica a natureza desse “habitar o céu”: será de outra forma (como aviador, não religioso) e por outro motivo (pelo ofício/sonho, não por fé). Logo, refere‑se ao sonho de ser piloto de avião.

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